Política

Zema questiona Gilmar Mendes no Dia de Tiradentes: “A Justiça não deveria ser cega?” e critica Judiciário

Zema, em discurso no Dia de Tiradentes, questiona Gilmar Mendes e critica o Judiciário O pré-candidato à presidência da República, Romeu Zema (Novo), elevou o tom de confronto com

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Zema, em discurso no Dia de Tiradentes, questiona Gilmar Mendes e critica o Judiciário

O pré-candidato à presidência da República, Romeu Zema (Novo), elevou o tom de confronto com o Supremo Tribunal Federal (STF) em um discurso proferido nesta terça-feira (21), durante a cerimônia da Medalha da Inconfidência, em Ouro Preto, Minas Gerais. Aproveitando a data histórica, Zema direcionou uma pergunta direta ao ministro Gilmar Mendes, indagando se a Justiça deveria ser cega, em um momento de aplausos da plateia presente.

A fala de Zema ocorre um dia após o ministro Gilmar Mendes ter solicitado sua inclusão no inquérito das fake news, intensificando as tensões entre o governador mineiro e a mais alta Corte do país. O governador mineiro classificou o cenário atual como um período de “profunda vergonha moral”, levantando questionamentos sobre episódios envolvendo ministros do STF.

O discurso de Zema ecoou um sentimento de insatisfação com o que ele percebe como privilégios e falta de transparência em decisões judiciais. A comparação com a Inconfidência Mineira foi uma estratégia deliberada para associar a atuação do Judiciário à opressão histórica, buscando engajar o público com uma narrativa de luta contra um sistema considerado injusto e explorador.

Zema questiona Gilmar Mendes e levanta suspeitas sobre ministros do STF

Em um dos momentos mais incisivos de seu pronunciamento, Romeu Zema questionou diretamente a imparcialidade da Justiça, dirigindo-se ao ministro Gilmar Mendes: “Eu pergunto a você, ministro Gilmar Mendes: a Justiça não deveria ser cega?”. A pergunta foi recebida com aplausos pela audiência, sinalizando um alinhamento com o sentimento de parte do público presente.

O governador mineiro também levantou sérias suspeitas sobre a conduta de ministros da Corte, sem citar nomes diretamente. Ele questionou como a esposa de um ministro do Supremo poderia ter um contrato de R$ 129 milhões com um indivíduo que ele classificou como “o maior golpista do Brasil”. Além disso, Zema mencionou o caso de um ministro que, segundo ele, “do dia para a noite, vira um grande investidor no negócio do turismo”.

Zema também fez referência a uma postagem de Gilmar Mendes em sua página na rede social X, na qual o ministro descreveu como “irônico” o fato de Zema atacar o STF após ter recorrido à Corte para renegociar as dívidas do estado de Minas Gerais com a União. O governador rebateu, afirmando que um ministro que julga um processo favorável a Minas Gerais não deveria se sentir credor do estado.

O pré-candidato encerrou sua fala conclamando os presentes a definirem “quem vai mandar no Brasil, se serão os intocáveis de Brasília ou os brasileiros de bem”. Ele também declarou que o país vive há quase 25 anos imerso em uma “crise ética”, reforçando seu discurso de oposição a um sistema político e judiciário que considera corrupto e distante do povo.

Paralelo com a Inconfidência Mineira e críticas ao sistema tributário

Romeu Zema traçou um forte paralelo entre a atual conjuntura política e a Inconfidência Mineira, evocando a figura de Tiradentes. Ele relembrou que Tiradentes foi executado por se rebelar contra o “quinto”, um imposto de 20% cobrado pela Coroa Portuguesa. Zema comparou essa cobrança à carga tributária brasileira atual.

“Hoje o brasileiro trabalha quase metade do ano para sustentar um sistema podre e vendido que não devolve nada ao povo”, afirmou Zema, criticando a ineficiência e a corrupção que, segundo ele, assolam o país. A comparação com o período colonial foi explícita: “Brasília explora o Brasil igual os portugueses fizeram. É um eterno ciclo colonial sendo revivido, onde o governo é rico e o povo é pobre.”

O governador mineiro também abordou as denúncias de fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), exemplificando como o dinheiro público é, em sua visão, desviado. “O dinheiro do pagador de impostos é drenado para sustentar uma casta de intocáveis que se julga acima da lei. O sistema vive no luxo e o povo no lixo”, declarou, reforçando a ideia de um Estado que privilegia uma elite em detrimento da população.

A estratégia de associar a luta pela liberdade, simbolizada pela Inconfidência, à sua própria retórica política foi antecipada por Zema. Ele já havia sinalizado que utilizaria a data de 21 de abril para conectar a atuação do Poder Judiciário à opressão colonial, buscando assim legitimar suas críticas e mobilizar apoio popular.

Zema elogia Tarcísio de Freitas e defende seu legado em Minas Gerais

A cerimônia em Ouro Preto também serviu para homenagear o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que recebeu o Grande Colar da Inconfidência, a mais alta honraria concedida pelo estado de Minas Gerais. Zema aproveitou a ocasião para elogiar Freitas e destacar as diferenças de gestão.

“São Paulo não passou pelas mãos podres do PT. Isso com certeza ajudou São Paulo a manter sua riqueza. Afinal, não foram assaltados como fomos aqui em Minas.”, disse Zema, em uma clara crítica ao Partido dos Trabalhadores e em defesa de sua própria gestão em Minas Gerais.

Em um tom de prestação de contas, Zema defendeu sua trajetória à frente do governo mineiro e celebrou a continuidade de sua política com a posse de Mateus Simões (PSD) como novo governador. O discurso ocorreu durante a solenidade conduzida por Simões na histórica cidade de Ouro Preto, que a cada 21 de abril retoma seu papel simbólico como berço de movimentos de independência e resistência.

O ministro do STF André Mendonça, que estava previsto para ser um dos homenageados com a Medalha da Inconfidência, não compareceu ao evento, o que adicionou um elemento de ausência notável à cerimônia, em meio ao clima de tensão política e jurídica.

A estratégia de Zema de se posicionar como um crítico ferrenho do sistema, comparando a atuação das instituições a um ciclo de exploração, visa consolidar sua imagem como um outsider e um defensor dos interesses do povo brasileiro contra uma elite política e judiciária percebida como distante e privilegiada. A data de Tiradentes, símbolo da luta contra a opressão, foi escolhida para dar peso histórico e simbólico a essa narrativa.

A declaração de Zema sobre a “crise ética” e a comparação com o “eterno ciclo colonial” reforçam sua plataforma política, que frequentemente ataca o que ele chama de “custo Brasil” e a ineficiência do Estado. Ao associar essas questões à atuação do STF e de seus ministros, Zema busca capitalizar o descontentamento popular e se apresentar como uma alternativa de mudança radical.

A escolha de Ouro Preto, palco da Inconfidência Mineira, não foi aleatória. A cidade carrega um forte simbolismo histórico de resistência e luta contra a opressão, o que Zema buscou evocar para legitimar suas críticas ao que ele descreve como um “sistema podre e vendido”. A presença de Tarcísio de Freitas, outro governador com discurso alinhado ao bolsonarismo, também reforça a articulação de forças políticas que se opõem ao establishment.

A ausência de André Mendonça, ministro do STF, na cerimônia, em meio a essas declarações de Zema, pode ser interpretada como um reflexo das tensões existentes entre o Judiciário e setores políticos que criticam sua atuação. O discurso de Zema, portanto, insere-se em um contexto de polarização política e jurídica, onde figuras públicas buscam definir narrativas que ressoem com seus eleitores.