Política
Pré-candidatos à Presidência Ignoram Preocupação Número 1 do Brasil: A Violência
Eleitores Preocupados com Violência, Pré-candidatos Focam em Outros Temas A principal preocupação dos brasileiros nas últimas semanas tem sido, de forma consolidada, a violência e
Eleitores Preocupados com Violência, Pré-candidatos Focam em Outros Temas
A principal preocupação dos brasileiros nas últimas semanas tem sido, de forma consolidada, a violência e a segurança pública. No entanto, os principais pré-candidatos à Presidência da República parecem estar em outra sintonia, dedicando atenção a temas como economia, corrupção e relações internacionais, em detrimento da questão que mais aflige a população.
Pesquisa recente aponta que 27% dos entrevistados consideram a violência o maior problema do país, superando a corrupção, problemas sociais e a saúde. Apesar desse cenário, um levantamento das redes sociais e declarações públicas dos pré-candidatos revela um distanciamento do assunto que domina as apreensões dos eleitores.
Essa desconexão entre as pautas dos aspirantes à presidência e as prioridades da população levanta questionamentos sobre a estratégia de campanha e a capacidade de resposta dos políticos às demandas sociais mais urgentes do Brasil neste momento de pré-eleições.
Conforme pesquisa Genial/Quaest divulgada na quarta-feira (15), a violência desponta como o principal problema do Brasil para 27% dos entrevistados. Em seguida, a corrupção aparece com 19% das menções, seguida por problemas sociais (16%) e saúde (14%). A economia figura com 9% e a educação fecha a lista, com 7% das respostas.
O levantamento, realizado entre 9 e 13 de abril com 2.004 eleitores com 16 anos ou mais, utilizou questionários telefônicos e entrevistas presenciais, apresentando uma margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos, com uma taxa de confiança de 95%.
Violência Como Pauta Dominante no Brasil
A violência tem se mantido consistentemente no topo da lista de preocupações dos brasileiros nos últimos tempos. A série histórica da Genial/Quaest sobre o tema demonstra que desde o início de 2025, a questão da segurança pública tem sido a maior apreensão da população, atingindo um pico em novembro de 2025, quando os números chegaram a quase 40%.
Esse cenário de crescente preocupação coincide com a expansão das facções criminosas e seu alastramento pelo território nacional. A atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) é apenas a ponta do iceberg; estima-se que existam nada menos que 88 facções criminosas espalhadas por todos os estados brasileiros, muitas delas inspiradas pelo “modelo de negócios” das maiores.
Uma investigação sigilosa da Diretoria de Inteligência Penitenciária da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, revelou a existência dessas numerosas organizações. Nomes como “Bonde dos Maluco”, “Os Mano”, “Comando Classe A” e “Comboio do Cão” ilustram a diversidade e capilaridade do crime organizado no país.
A persistência da violência como principal preocupação reflete o impacto direto na vida cotidiana dos cidadãos, especialmente nas periferias das grandes cidades, onde a sensação de insegurança é mais acentuada. A escalada do crime organizado e a proliferação de grupos criminosos criam um ambiente de medo e instabilidade.
Diante desse quadro, a expectativa é que os pré-candidatos à Presidência apresentem propostas concretas e robustas para combater a criminalidade e restaurar a paz social. Contudo, a análise das suas comunicações recentes indica um foco em outras agendas.
Desconexão dos Pré-Candidatos com a Realidade Popular
Um rápido panorama pelas redes sociais e declarações públicas dos principais pré-candidatos à Presidência, abrangendo o espectro político da direita à esquerda, evidencia uma notável desconexão com o anseio popular por segurança pública. Enquanto a violência domina as conversas e preocupações dos brasileiros, os postulantes ao cargo máximo do país têm priorizado outros temas em suas agendas de comunicação.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por exemplo, após sinalizar que abraçaria a pauta da segurança pública, especialmente com as operações da Polícia Federal contra o crime organizado, tem concentrado suas postagens e discursos em questões econômicas. Assuntos como a fila do INSS e o endividamento das famílias, além de indicações de novas ações e programas governamentais, como um eventual “Desenrola 2” ou a extinção da “taxa das blusinhas”, têm sido o foco principal.
No Instagram, onde possui milhões de seguidores, Lula tem abordado uma variedade de temas, desde programas de educação e o impacto da guerra no Irã nos preços dos combustíveis, até a inflação, o SUS, a licença-paternidade ampliada e o fim da escala 6×1. Curiosamente, a violência e a segurança pública não figuram em suas postagens recentes. A última menção ao tema em sua rede social data de 24 de março, em um vídeo sobre a sanção da Lei Antifacção, aprovada em acordo com o Congresso Nacional.
Do lado da oposição, a situação não é diferente. O senador Flávio Bolsonaro (PL), que historicamente tem o combate ao crime como uma de suas bandeiras, também tem relegado o tema a segundo plano. Em suas redes sociais, onde acumula milhões de seguidores, a última postagem sobre violência ocorreu em 14 de março, com uma crítica ao governo Lula por supostamente fazer “lobby pró-bandido” nos Estados Unidos. A menção referia-se à acusação de que o governo Lula estaria atuando para evitar que facções fossem classificadas como organizações terroristas por aquele país.
Até mesmo o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), que possui um histórico de redução da criminalidade em seus mandatos, tem dado pouca ênfase à segurança pública em sua comunicação. Em seu perfil no Instagram, a última postagem sobre o tema data de 31 de março, com uma declaração genérica sobre “dar condições para a polícia trabalhar” e “devolver o Brasil aos brasileiros de bem”. Antes disso, o assunto praticamente desapareceu de suas publicações.
A Ascensão das Facções e o Impacto na Sociedade
A proliferação de facções criminosas no Brasil é um fenômeno complexo e multifacetado, com raízes históricas e que tem se intensificado nas últimas décadas. O que antes se resumia a poucos grupos de grande porte, hoje se ramificou em dezenas de organizações com atuação regional e, em alguns casos, nacional.
O levantamento sigiloso da Diretoria de Inteligência Penitenciária da Senappen, ao identificar 88 facções criminosas em todo o país, revela a dimensão do problema. Essa fragmentação, embora possa parecer uma diluição do poder, na prática significa uma capilaridade ainda maior do crime organizado, infiltrando-se em diversas esferas da sociedade e aumentando a sensação de insegurança.
Essas facções, muitas delas inspiradas pelo modelo de gestão e operação de grupos como PCC e Comando Vermelho, disputam territórios, controlam rotas de tráfico de drogas e armas, e impõem suas próprias regras em comunidades inteiras. A violência não se limita a confrontos entre grupos rivais, mas se estende à extorsão, homicídios, sequestros e a uma série de outras atividades criminosas que afetam diretamente a vida dos cidadãos.
A atuação dessas organizações criminosas impacta não apenas a segurança pública, mas também a economia, o sistema prisional e a própria estrutura do Estado. O medo imposto pelas facções pode inibir investimentos, dificultar a prestação de serviços públicos e gerar um ciclo vicioso de violência e exclusão social.
A ascensão dessas facções também expõe falhas no sistema de justiça criminal e no sistema penitenciário, que muitas vezes se tornam verdadeiras universidades do crime, onde lideranças são formadas e novas estratégias são desenvolvidas. A falta de ressocialização efetiva e a superlotação das unidades prisionais contribuem para a perpetuação desse cenário.
A resposta a esse desafio exige políticas públicas abrangentes, que vão além da repressão policial. É fundamental investir em inteligência, combate à lavagem de dinheiro, programas de reintegração social, além de políticas sociais que promovam a inclusão e reduzam as desigualdades que muitas vezes servem de terreno fértil para o recrutamento por parte do crime organizado.
O Que Dizem as Pesquisas e a Expectativa do Eleitor
A pesquisa Genial/Quaest oferece um retrato claro das prioridades do eleitorado brasileiro. Ao apontar a violência como a principal preocupação para 27% dos entrevistados, o levantamento sinaliza um clamor por atenção e soluções efetivas por parte dos candidatos. Esse percentual é significativo e demonstra que a segurança pública não é um tema marginal, mas sim central na vida de uma parcela considerável da população.
A distância entre essa preocupação popular e o foco dos pré-candidatos levanta um ponto crucial para a próxima eleição. Ignorar a violência pode significar perder a conexão com um eleitorado cada vez mais apreensivo e que busca respostas concretas para seus medos diários. A corrupção, embora em segundo lugar, também é uma preocupação latente, mas a sensação de insegurança física muitas vezes se sobrepõe.
A série histórica da Genial/Quaest, que mostra a violência no topo das preocupações desde o início de 2025, reforça a constância desse sentimento. O pico atingido em novembro de 2025, com quase 40% das menções, indica que houve momentos de maior gravidade percebida, mas a questão nunca deixou de ser um problema prioritário.
O eleitorado espera que os candidatos apresentem propostas detalhadas e exequíveis para lidar com o crime organizado, a violência urbana e a sensação de impunidade. Discursos genéricos ou a evasão do tema podem ser interpretados como falta de preparo ou desinteresse pelas reais necessidades da população.
A forma como os pré-candidatos irão ajustar suas estratégias de comunicação e propostas diante desses dados será determinante para o sucesso de suas campanhas. A capacidade de dialogar com as preocupações mais urgentes dos brasileiros, especialmente no que tange à segurança, pode ser o diferencial em um cenário eleitoral cada vez mais competitivo e atento às demandas sociais.
A persistência da violência como tema central nas preocupações da população, aliada à aparente negligência dos pré-candidatos, cria um vácuo que pode ser explorado por aqueles que souberem apresentar um plano de governo consistente e eficaz para a área de segurança pública, transformando a apreensão em voto.


