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A Arte de Putin: Como Bilionários Russos Viraram Aliados Silenciosos em Meio a Sanções e Guerra
Putin Sela Apoio de Bilionários Russos: Sanções Ocidentais Criam Aliados Inesperados
Em um cenário político complexo, o presidente russo, Vladimir Putin, demonstrou uma habilidade notável em consolidar o apoio dos bilionários de seu país. Contrariando as expectativas ocidentais, as sanções impostas após a invasão da Ucrânia, em vez de gerar oposição, acabaram por fortalecer a lealdade desses super-ricos ao Kremlin. As políticas de recompensa e punição de Putin moldaram um grupo de apoiadores silenciosos, que agora desempenham um papel crucial na economia de guerra russa.
A estratégia de Putin se revela eficaz ao transformar a pressão externa em um fator de união interna. Os magnatas russos, antes capazes de influenciar o poder, agora se encontram em uma posição onde a lealdade ao regime é a chave para a preservação e, em muitos casos, para o crescimento de suas fortunas. Este artigo explora como essa dinâmica se desenvolveu, os mecanismos utilizados por Putin e as consequências para a Rússia e o cenário global.
A capacidade de Putin de manter o controle sobre as figuras mais influentes do país, mesmo em tempos de guerra e isolamento internacional, é um testemunho de sua astúcia política. As sanções, em vez de enfraquecê-lo, parecem ter servido a um propósito inesperado, forçando os bilionários russos a se alinharem ainda mais com os objetivos do Kremlin. Conforme aponta Giacomo Tognini, da revista Forbes, mais da metade dos bilionários russos em 2024 desempenha algum papel no esforço de guerra ou se beneficia diretamente da invasão.
O Legado da Oligarquia e o Controle de Putin
Nos anos que se seguiram ao colapso da União Soviética, a Rússia viu o surgimento de uma nova classe de ricos, os chamados oligarcas, que acumularam vastas fortunas a partir de empresas estatais. Naquela época, esses magnatas detinham considerável poder político. Boris Berezovsky, um dos oligarcas mais influentes, chegou a ser creditado por orquestrar a ascensão de Putin ao poder. No entanto, sob o longo governo de Putin, essa influência política foi gradualmente erodida.
A trajetória de figuras como Mikhail Khodorkovsky, outrora o homem mais rico da Rússia e que passou uma década na prisão após fundar uma organização pró-democracia, serve como um lembrete severo das consequências de desafiar o Kremlin. A morte misteriosa de Berezovsky no exílio, anos após ter expressado arrependimento por seu papel na ascensão de Putin, também sinalizou o fim de uma era em que os oligarcas ditavam os rumos políticos do país.
Sanções Ocidentais: Um Fator de Unificação, Não de Oposição
Quando Putin ordenou a invasão em larga escala da Ucrânia em fevereiro de 2022, os bilionários russos reunidos no Kremlin estavam visivelmente abalados, cientes do iminente impacto em suas fortunas. Relatos descrevem a reunião como composta por indivíduos “pálidos e privados de sono”. Inicialmente, as sanções ocidentais e o enfraquecimento do rublo causaram perdas significativas, com o número de bilionários russos caindo de 117 para 83 em abril de 2022, e uma perda coletiva de US$ 263 bilhões.
No entanto, a estratégia de Putin se mostrou resiliente. As sanções, ao congelarem ativos e contas no exterior, tornaram a dissidência ou a fuga para o Ocidente uma opção inviável. Alexander Kolyandr, do Centro de Análise Política Europeia (CEPA), argumenta que o Ocidente, ao impor essas medidas, inadvertidamente “fez tudo o que estava ao seu alcance para garantir que os bilionários russos se unissem em torno da bandeira”. Sem caminhos claros para desertar, a única alternativa viável passou a ser alinhar-se com o Kremlin.
A Economia de Guerra e o Lucro dos Aliados de Putin
Os anos que se seguiram à invasão revelaram benefícios substanciais para aqueles integrados à economia de guerra de Putin. O generoso investimento em defesa impulsionou o crescimento econômico da Rússia, superando 4% anuais em 2023 e 2024. Esse cenário próspero beneficiou até mesmo os bilionários que não estavam diretamente envolvidos em contratos de defesa, mas que souberam navegar no novo ambiente econômico.
O êxodo de empresas estrangeiras após a invasão abriu um vácuo rapidamente preenchido por empresários leais ao Kremlin. Estes puderam adquirir ativos lucrativos a preços reduzidos, criando um “novo exército de leais influentes e ativos”, como descreve Alexandra Prokopenko, do Carnegie Russia Eurasia Center. Em 2024, 11 novos bilionários surgiram na Rússia por meio dessas aquisições estratégicas.
O Papel dos Bilionários no Futuro da Rússia
A estratégia de Putin de recompensar a lealdade e punir a dissidência garantiu que a vasta maioria dos mega-ricos russos permanecesse em silêncio. Os poucos que ousaram criticar publicamente a guerra foram forçados ao exílio, sacrificando grande parte de suas fortunas. A situação dos bilionários russos, que antes eram alvos de sanções com o objetivo de afastá-los do Kremlin, agora os posiciona como pilares essenciais do esforço de guerra e da economia russa.
O caso de Oleg Tinkov, que perdeu quase US$ 9 bilhões e deixou a Rússia após criticar a guerra, exemplifica a dura realidade. Seu banco foi vendido a um empresário ligado a Vladimir Potanin por uma fração de seu valor. Essa dinâmica, de recompensa aos leais e punição aos dissidentes, solidificou o apoio dos bilionários à agenda de Putin, transformando o que poderia ter sido uma fonte de oposição em um motor crucial para a manutenção do poder e a continuidade do conflito.


