Política

Entenda a Trama: Bloqueios, Acampamentos e a Escalada Violenta até o 8/1

Dos Bloqueios em Rodovias aos Atos Terroristas que Precederam o 8 de Janeiro de 2023 As imagens da depredação das sedes dos Três Poderes da República, em 8 de janeiro de 2023, choc

Cronologia Detalhada: Dos Bloqueios em Rodovias aos Atos Terroristas que Precederam o 8 de Janeiro de 2023

As imagens da depredação das sedes dos Três Poderes da República, em 8 de janeiro de 2023, chocaram o Brasil e o mundo. A invasão do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal (STF) por milhares de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, derrotado nas urnas dois meses antes, marcou um dos momentos mais sombrios da democracia brasileira.

Este evento foi o ápice de uma trama golpista que se desenrolou ao longo de meses, envolvendo atos coordenados e isolados que buscavam romper com a ordem democrática e manter o grupo bolsonarista no poder. A Procuradoria-Geral da República (PGR) apontou que o plano começou a ser esboçado ainda em 2021.

A Agência Brasil reconstituiu a cronologia desses fatos, desde o fim das eleições de 2022 até o fatídico 8 de janeiro, detalhando os bloqueios de rodovias, os acampamentos em frente a quartéis e os atos de violência que escalaram a tensão política.

O Início da Trama: A Derrota Eleitoral e os Bloqueios nas Rodovias

A disputa presidencial de 2022 foi uma das mais acirradas da história do Brasil. Luiz Inácio Lula da Silva venceu Jair Bolsonaro com uma margem apertada, 50,9% contra 49,1% dos votos válidos. O resultado não foi prontamente aceito por parte dos apoiadores do então presidente, que demorou dois dias para se manifestar de forma ambígua, alimentando especulações.

Na mesma noite do segundo turno, enquanto apoiadores de Lula celebravam, grupos de caminhoneiros e manifestantes bolsonaristas iniciaram bloqueios em rodovias federais em diversos estados. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) mapeou mais de mil interdições totais ou parciais. Esses bloqueios atingiram seu auge nos primeiros dias de novembro.

Diante da paralisação, Bolsonaro pediu publicamente a desobstrução das rodovias, em sua primeira manifestação após o resultado das urnas. Ele agradeceu os votos, mas não parabenizou o adversário pela vitória. Os bloqueios, que causaram problemas pontuais de desabastecimento e cancelamento de voos, perderam força gradualmente e foram encerrados no fim da primeira semana de novembro.

Acampamentos em Quartéis: Centros de Conspiração e Exigência de Intervenção Militar

Com o enfraquecimento dos bloqueios rodoviários, o movimento bolsonarista mudou sua estratégia e começou a montar acampamentos em frente a quartéis das Forças Armadas em várias capitais, como Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. A principal demanda era por uma intervenção militar e o questionamento da legitimidade das eleições.

Estima-se que mais de 100 acampamentos tenham sido formados, sendo o mais significativo o que se instalou em frente ao Quartel-General (QG) do Exército em Brasília. Este último se tornaria o ponto de partida para os manifestantes que depredariam a Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023.

Diferentemente dos bloqueios rodoviários, que Bolsonaro pediu o fim, os acampamentos golpistas, como ficaram conhecidos, tiveram aval direto do então presidente, segundo a denúncia da PGR. A estratégia visava criar um ambiente propício para uma eventual intervenção. Uma nota dos comandantes das três Forças autorizando a permanência dos manifestantes em frente aos quartéis, por ordem de Bolsonaro, foi apresentada como prova.

Esses acampamentos se transformaram em centros de conspiração, contando com estruturas de alimentação e alojamento para milhares de pessoas. A logística para a manutenção desses espaços foi posteriormente alvo de processos judiciais no STF, que condenou envolvidos diretos.

Escalada da Violência: Atos Terroristas e Tensão Política

A tensão nos acampamentos golpistas, a recusa em reconhecer a derrota eleitoral e uma ação do Partido Liberal (PL) no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para invalidar votos de parte das urnas eletrônicas aumentaram o caldo golpista ao longo de novembro e início de dezembro de 2022. No último mês do ano, as ações escalaram para a violência política explícita.

Em 12 de dezembro, dia da diplomação de Lula no TSE, Brasília viveu uma de suas noites mais violentas. Manifestantes bolsonaristas tentaram invadir a sede da Polícia Federal e incendiaram carros e ônibus, em cenas de vandalismo que chocaram o país.

Na véspera de Natal, em 24 de dezembro, um artefato explosivo foi encontrado em um caminhão-tanque próximo ao Aeroporto de Brasília. A tragédia só foi evitada porque o explosivo falhou. As investigações apontaram para uma tentativa de atentado a bomba organizada por apoiadores bolsonaristas do acampamento do QG do Exército, com o objetivo de causar comoção social e precipitar uma intervenção militar.

Três envolvidos na tentativa de atentado no aeroporto se tornaram réus no STF pelos crimes de associação criminosa, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, tentativa de golpe de Estado e atentado contra a segurança de transporte aéreo. As autoridades prepararam um forte esquema de segurança para a posse de Lula em 1º de janeiro de 2023, que ocorreu sem intercorrências, mas a tranquilidade seria quebrada uma semana depois.

Memória e Democracia: A Conscientização Após os Atos Golpistas

Em memória aos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, o Brasil realizou eventos em defesa da democracia. No Palácio do Planalto, o presidente Lula participou de uma cerimônia com autoridades e representantes da sociedade civil, reforçando os valores democráticos após a invasão e depredação das sedes dos Três Poderes.

O Supremo Tribunal Federal (STF) também organizou uma programação especial dentro da campanha “Democracia Inabalada”. Essas iniciativas buscam manter viva a memória dos eventos e reafirmar o compromisso com o Estado Democrático de Direito, alertando para os perigos de discursos que questionam a legitimidade das instituições e buscam a ruptura institucional.

A cronologia dos eventos que antecederam o 8 de janeiro demonstra um plano articulado que envolveu desde manifestações pacíficas, como os bloqueios rodoviários iniciais, até ações mais radicais e violentas, como os acampamentos em quartéis e a tentativa de atentado a bomba. A compreensão dessa sequência é fundamental para entender a gravidade dos fatos e a importância da vigilância constante em defesa da democracia brasileira.