Política

Evangélicos Rejeitam Uso Eleitoral de Igrejas, Mas Religião Segue Influenciando Voto por Valores e Identidade

Apesar de serem alvo constante de disputas políticas e de líderes religiosos atuarem ativamente no debate público, a maioria dos evangélicos e outros cristãos no Brasil prefere man

Evangélicos Rejeitam Uso Eleitoral de Igrejas, Mas Religião Segue Influenciando Voto por Valores e Identidade

Apesar de serem alvo constante de disputas políticas e de líderes religiosos atuarem ativamente no debate público, a maioria dos evangélicos e outros cristãos no Brasil prefere manter a política fora dos templos. Uma pesquisa recente aponta que 83% dos entrevistados são contrários à indicação de voto por pastores e padres, e 90% rejeitam campanhas eleitorais dentro dos espaços religiosos.

Essa aversão à politização direta dos locais de culto não significa, contudo, um distanciamento entre fé e política. Pelo contrário, a influência religiosa no comportamento eleitoral tem se deslocado para a formação de valores, identidades e pertencimentos, mediada por novas plataformas e relações de confiança.

A pesquisa nacional “Religião e Vida Pública no Brasil”, realizada pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser) em parceria com a Quaest Pesquisa e Consultoria, traz um panorama detalhado sobre essa dinâmica. O estudo, que ouviu 15 mil pessoas em todo o país, revela que a influência da religião no voto é mais sutil, ocorrendo pela construção de visões de mundo e pela participação em redes de confiança, especialmente no ambiente digital.

Conforme informações divulgadas pelo Iser e Quaest, o voto deveria ser do cidadão e não da religião, como afirma o pastor Lucas Oliveira, 30 anos, que atua em uma igreja batista de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Sua declaração reflete uma contradição central percebida pela pesquisa: a rejeição ao uso eleitoral explícito das igrejas coexiste com a percepção de que a fé molda, de fato, as escolhas políticas.

A Influência Sutil da Religião na Formação do Voto

A pesquisadora Lívia Reis, do Iser, explica que a influência religiosa na política se dá menos pela transferência direta de votos e mais pela mediação religiosa do voto. Isso significa que os valores, a visão de mundo e as identidades formadas no contexto religioso impactam a maneira como os fiéis interpretam a realidade e tomam suas decisões eleitorais, sem necessariamente seguir uma orientação direta de seus líderes.

A politização dos templos, que se intensificou a partir das eleições presidenciais de 2018, gerou divisões internas nas comunidades religiosas. Muitos fiéis passaram a sentir que podem formar suas próprias opiniões políticas, independentemente da influência direta das lideranças. Essa percepção, no entanto, não anula a atuação pública de algumas lideranças.

“A presença forte de lideranças no debate eleitoral não contradiz esse dado. Ela mostra que essas lideranças atuam para além do templo: na mídia, nas redes, no Parlamento”, analisa Reis. Ela acrescenta que a indicação de voto não é uniforme e se concentra em algumas denominações específicas, como a Universal, a Quadrangular e as Assembleias de Deus.

O pastor Lucas Oliveira relata o trauma vivido por muitas comunidades religiosas devido ao impacto do discurso eleitoral e às divisões internas que ele causou. “Conheço pastor que lá em 2018 estava fervorosamente apoiando candidaturas, mas que hoje não quer nem tocar nesse assunto, quer esquecer que um dia fez campanha política. Porque com isso ele perdeu um número expressivo [de fiéis] da igreja”, conta.

Ele descreve que a igreja se tornou, para muitas pessoas, um “lugar de pessoas machucadas” em relação ao tema da política. O pastor Moisés Blanco, da Igreja Batista Peregrina em Natal e participante da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, corrobora essa visão, apontando uma reação dentro do próprio campo evangélico à politização dos espaços religiosos.

A Base Histórica e a Resistência à Interferência

A preocupação com o uso político dos templos remonta à própria gênese do protestantismo, que historicamente defende a liberdade de consciência e a separação entre Igreja e Estado. “Era a luta contra o absolutismo, contra justamente essa unificação de Estado e rei e uma religião que era reflexo do próprio Estado”, afirma Blanco.

Ele critica segmentos evangélicos que, segundo ele, tentam impor uma agenda religiosa sobre o ambiente público, negando esse legado histórico. A Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito reúne religiosos contrários e preocupados com a politização dos templos e busca fortalecer a defesa da autonomia individual na esfera política.

A pesquisa Iser/Quaest, realizada com 15 mil entrevistas presenciais em 412 municípios brasileiros, oferece uma radiografia detalhada sobre como a fé se entrelaça com valores morais e a política na sociedade contemporânea. A margem de erro de 1% confere alta confiabilidade aos dados apresentados.

O segmento evangélico, que hoje representa 29% da população brasileira, é heterogêneo. Sete em cada dez evangélicos são pentecostais (70%), mas há parcelas significativas de protestantes (17%) e evangélicos sem igreja (10%). A Assembleia de Deus continua sendo a maior denominação, com 32% dos fiéis, seguida por outras denominações menores.

No catolicismo, que representa 50% da população, a pesquisa distingue praticantes (31%) de não praticantes (19%). Os católicos praticantes demonstram níveis de engajamento comparáveis aos dos evangélicos, adaptando suas práticas ao consumo de entretenimento religioso e novas tecnologias.

O Ambiente Digital como Novo Palco da Influência Religiosa

Embora os fiéis rejeitem a politização do templo, a religião e seus valores continuam presentes nas redes sociais, grupos online e relações de confiança, influenciando o comportamento político dos cristãos no ambiente digital. O WhatsApp, por exemplo, é utilizado por 66% dos entrevistados como espaço de articulação de comunidades e grupos religiosos online.

“As redes sociais e o WhatsApp permitem que a religião esteja na política sem passar pelo púlpito. A mensagem política chega pelo grupo da igreja, pelo influenciador religioso ou pelo vídeo compartilhado pela família, sem a formalidade de uma indicação no culto”, explica Lívia Reis.

Essa mediação religiosa se desloca do templo para um ambiente digital mais difuso, mas igualmente ancorado em relações de confiança. No segmento católico, a influência digital se concentra em lideranças clericais de grande alcance. Já no campo evangélico, a liderança digital é pulverizada, com influenciadores e figuras políticas atuando como referências.

Evangélicos declaram se informar sobre política mais pelo WhatsApp, enquanto católicos recorrem mais à televisão. A religião também transborda para o consumo cultural, com 73% dos entrevistados afirmando usar a Bíblia como fonte de ensinamentos e 67% consumindo música gospel.

Valores Morais e a Construção da Identidade Política

A pesquisa Iser/Quaest demonstra que, embora a religião não determine automaticamente o voto, ela participa de sua construção por meio de valores, identidades e redes de pertencimento. O fiel elabora sua posição a partir de repertórios religiosos que se combinam com experiências de classe, raça, gênero e escolaridade.

Os dados revelam que a religião pesa mais em temas morais, como a aceitação da diversidade sexual e a defesa de valores cristãos. No entanto, seu peso é menor em políticas públicas concretas, como vacinação e educação sexual, onde a concordância é alta em todos os grupos religiosos.

Um exemplo da complexidade dessa relação é o apoio a programas sociais: 75% dos conservadores apoiam o Bolsa Família e 66% são a favor da taxação dos mais ricos. Essa realidade desafia a associação automática entre identidade evangélica e posições conservadoras em todos os temas.

Entre os evangélicos, 79% apoiam a educação sexual nas escolas e 80% são favoráveis ao uso de métodos contraceptivos. Na questão do aborto, a divisão é ainda mais evidente, com 47% a favor da punição e 45% contrários, com variações significativas de acordo com renda e escolaridade.

O pastor Lucas, de Nova Iguaçu, se identifica como cristão e reflete sobre a polarização: “Essa diferença entre conservador e progressista se trata de duas faces da mesma moeda”. Lívia Reis conclui que as pautas morais funcionam como marcadores de identidade, mobilizando o debate público, mas convivem com posições menos polarizadas em temas sociais concretos.

O Caso Nossa Senhora Aparecida e a Polarização em Debate

Um episódio recente envolvendo Nossa Senhora Aparecida evidenciou a força do debate religioso na esfera pública e política. Informações sobre grupos evangélicos ligados à campanha de Flávio Bolsonaro defendendo a destituição de Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil geraram polêmica.

Flávio Bolsonaro negou o fato e acionou a Justiça Eleitoral, obtendo uma liminar favorável do ministro André Mendonça, do TSE, para a remoção de conteúdos na internet. No entanto, a decisão foi derrubada pelo ministro Flávio Dino, do STF, para liberar a postagem de um humorista sobre o caso.

Posteriormente, uma terceira decisão do ministro Luiz Fux restabeleceu a suspensão das postagens. O TSE iniciou o julgamento sobre a manutenção da decisão de Mendonça, que votou a favor de manter a retirada das publicações. O caso demonstra a sensibilidade e a polarização em torno de temas religiosos no contexto eleitoral, mesmo com a rejeição da politização direta dos templos.