Política
Agressões Políticas Contra Mulheres Disparam em Mês de Luta Contra Violência de Gênero: Entenda os Dados e Casos
O mês de novembro, dedicado à conscientização e combate à violência contra a mulher, tem sido marcado por um preocupante aumento nas agressões de cunho político direcionadas a mulh
Agressões Políticas Contra Mulheres Disparam em Mês de Luta Contra Violência de Gênero: Entenda os Dados e Casos
O mês de novembro, dedicado à conscientização e combate à violência contra a mulher, tem sido marcado por um preocupante aumento nas agressões de cunho político direcionadas a mulheres. Tanto organizações da sociedade civil quanto fontes governamentais têm registrado um crescimento alarmante nesses ataques, que visam silenciar e desestimular a participação feminina nos espaços de poder e decisão.
Dados recentes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revelam um cenário sombrio: os casos de agressões políticas de gênero aumentaram impressionantes 11 vezes entre 2022 e 2026, saltando de 15 para 177 processos. Essa escalada coincide com a proximidade de períodos eleitorais e a intensificação do debate público sobre a representatividade feminina.
A data de 10 de novembro, instituída como Dia Nacional de Luta contra a Violência à Mulher, remete a um marco histórico em 1980, quando mulheres se reuniram em São Paulo para protestar contra o crescente número de crimes de gênero no país. Hoje, a violência política se insere nesse contexto, revelando novas facetas da discriminação e do machismo estrutural.
Conforme informações divulgadas por organizações de direitos humanos como Terra de Direitos e Justiça Global, durante a campanha eleitoral até o primeiro turno das eleições, foram contabilizados 134 casos de violência política. Isso significa que ocorreu um incidente a cada nove horas, sendo que 70 deles tiveram mulheres como vítimas, representando 52,2% do total. Ao analisar os episódios direcionados especificamente a candidatas, dos 102 casos registrados, 60 tiveram mulheres como alvo (58,8%).
O Impacto Desproporcional da Violência Política de Gênero
Embora as mulheres representem aproximadamente um terço das candidaturas no Brasil, elas foram alvo em mais da metade dos episódios de violência política. Essa disparidade evidencia um padrão de ataque direcionado que busca minar a ascensão feminina na esfera pública. O levantamento demonstra que a violência política de gênero não é um fenômeno isolado, mas sim uma manifestação de estruturas de poder que tentam perpetuar a exclusão das mulheres.
Os dados da Central de Atendimento à Mulher, o Disque 180, corroboram essa tendência alarmante. Entre janeiro e agosto de 2026, foram registradas 1.564 denúncias de violência política contra mulheres. Esses números refletem a gravidade da situação e a necessidade urgente de ações eficazes para coibir tais práticas e garantir a segurança e a participação plena das mulheres na política.
Um aspecto particularmente preocupante é o recorte racial dentro das vítimas de violência política. Mulheres pretas e pardas são as mais afetadas. Das 1.564 denúncias registradas no Disque 180, mais de 53% (842) foram sofridas por elas. Em seguida, aparecem mulheres brancas, com 590 denúncias (37,72%), e outras 132 (8,44%) com impacto em mulheres de outras raças. Essa realidade sublinha a interseccionalidade da discriminação, onde raça e gênero se entrelaçam para criar vulnerabilidades ainda maiores.
Denúncias e Ameaças Reais: O Caso da Deputada Ana Elisa
O cenário de violência política no Brasil durante o pleito de 2026 foi ilustrado por casos concretos, como as ameaças de morte e violência sexual denunciadas pela deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG). Ela relatou à Polícia Civil ter recebido mensagens com ataques machistas, racistas e ameaças de estupro durante o período de campanha. Além disso, seus dados pessoais, como endereço residencial, número de telefone e documentos, foram expostos, levando o partido a contratar segurança armada para protegê-la.
Ana Elisa obteve 524.219 votos nas eleições para deputada federal em 2026, tornando-se a segunda mais votada em Minas Gerais para o cargo, atrás apenas de Nikolas Ferreira (PL). Ela também se consagrou como a mulher mais votada na história de Minas Gerais para a Câmara dos Deputados e a deputada federal mais jovem já eleita no Brasil. Seu caso, contudo, expõe a dura realidade enfrentada por mulheres que ousam ocupar espaços de destaque na política nacional.
O Ministério das Mulheres, por meio da secretária Nacional de Articulação Intersetorial e Interfederativa e Participação Política, Sandra Kennedy, conecta a violência política contra as mulheres a um fenômeno mais amplo. Ela caracteriza a situação como uma exacerbação da misoginia, da violência doméstica e do feminicídio em uma sociedade patriarcal. “É assustador porque as violências políticas são, no fundo, questões estruturais, sejam elas no limite da ameaça à vida, sejam essas violências cotidianas e veladas que tentam desestimular a participação da mulher na política”, afirmou Kennedy.
Um Histórico de Agressões: Casos Emblemáticos de Violência Política
A Agência Brasil relembra outros casos em que a ameaça às mulheres na política transcendeu o desestímulo e chegou ao risco real à vida e à integridade física. O assassinato da vereadora Marielle Franco (Psol-RJ) em março de 2018, no Rio de Janeiro, é um dos exemplos mais trágicos. Marielle, mulher negra e LGBTQIA+, foi morta a tiros em via pública, um crime que chocou o país e ainda busca respostas definitivas.
Outro caso notório foi o da deputada estadual de São Paulo Isa Penna (Psol-SP), que foi apalpada na região do seio pelo então deputado Fernando Cury durante uma sessão na Assembleia Legislativa paulista em dezembro de 2020. Cury foi posteriormente condenado por importunação sexual, demonstrando que a violência sexual também se manifesta no ambiente político.
Em 2014, a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) foi alvo de declarações misóginas do então deputado federal Jair Bolsonaro, que afirmou que ela não mereceria ser estuprada por ser “muito feia” e não fazer seu “tipo”. Mais recentemente, a retirada da escolta armada da deputada federal Talíria Petrone (PSol-RJ) em julho deste ano, mesmo sob ameaça de milicianos, levantou preocupações sobre a segurança de parlamentares em exercício.
Além disso, as interrupções sistemáticas das falas de senadoras como Simone Tebet (PSB-MS) e Soraya Thronicke (PSB-MS) durante as sessões da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19 em 2021, e os rótulos de “nervosas” atribuídos a elas, exemplificam a violência verbal e o sexismo que muitas mulheres enfrentam no Congresso Nacional. Esses episódios, somados, compõem um quadro preocupante da persistência da violência política de gênero no Brasil.
Canais de Denúncia e Orientação para Mulheres Vítimas de Violência Política
Diante desse cenário alarmante, é fundamental que mulheres em situação de violência política e quaisquer pessoas que tenham conhecimento de tais crimes saibam a quem recorrer. Diversos canais institucionais estão disponíveis para denúncias e orientação, garantindo atendimento gratuito, humanizado e sigiloso.
A Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana, e oferece atendimento por telefone (180), WhatsApp (61) 9610-0180, e-mail (central180@mulheres.gov.br) e videochamada em Libras. Outras opções incluem a Ouvidoria das Mulheres do Conselho Nacional do Ministério Público, a Procuradoria-Geral Eleitoral, por meio da Sala de Atendimento ao Cidadão do Ministério Público Federal, e a Ouvidoria Nacional da Mulher do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
A Polícia Federal, através do canal Comunica PF e nas delegacias estaduais, também recebe denúncias. O Grupo de Trabalho Mulheres da Defensoria Pública da União (DPU) oferece assistência e orientação jurídica. Em casos de emergência, a Polícia Militar pode ser acionada pelo telefone 190. É crucial que as vítimas e a sociedade civil utilizem esses canais para combater a impunidade e fortalecer a democracia, garantindo que todas as mulheres possam participar da vida política sem medo ou assédio.


