Política

Flávio Bolsonaro em sabatina: promessas vagas, acusações sem provas e reviravolta em pauta trabalhista

Flávio Bolsonaro evita detalhes sobre propostas e levanta polêmicas em sabatina na TV Globo Em sabatina promovida pela TV Globo na noite desta sexta-feira (16), o candidato à presi

Flávio Bolsonaro evita detalhes sobre propostas e levanta polêmicas em sabatina na TV Globo

Em sabatina promovida pela TV Globo na noite desta sexta-feira (16), o candidato à presidência da República pelo PL, Flávio Bolsonaro, apresentou um discurso marcado pela ausência de detalhamento em suas propostas, pela minimização de eventos como os atos de 8 de janeiro de 2023 e por acusações sem apresentação de provas concretas. Durante pouco mais de 40 minutos de entrevista, o senador abordou temas como a tentativa de golpe de Estado, a reeleição, a condenação de seu pai, Jair Bolsonaro, e questões trabalhistas, demonstrando, em muitos momentos, uma postura evasiva diante de questionamentos mais incisivos.

Flávio Bolsonaro negou a caracterização dos eventos de 8 de janeiro como uma tentativa de golpe de Estado, classificando o julgamento de seu pai, Jair Bolsonaro, como uma “farsa totalmente armada”. O candidato também se mostrou favorável à extinção da escala 6×1 de trabalho, uma reviravolta em seu posicionamento anterior, e defendeu a facilitação do acesso a armas de fogo, sem, contudo, detalhar como essas medidas seriam implementadas ou quais seriam seus impactos práticos.

A sabatina, que ocorreu horas após um almoço com executivos da Rede Globo, também abordou as relações do candidato com figuras controversas e o financiamento de um filme. A entrevista expôs a estratégia de campanha de Flávio Bolsonaro, que busca se descolar de investigações e, ao mesmo tempo, apresentar uma agenda com propostas que, em sua maioria, carecem de detalhamento e embasamento.

Conforme informações divulgadas pela própria emissora e repercutidas por diversos veículos de comunicação, a sabatina de Flávio Bolsonaro trouxe à tona pontos cruciais de sua plataforma e de seu histórico político.

Minimizando o 8 de janeiro e defendendo o pai

Um dos pontos centrais da entrevista foi a abordagem de Flávio Bolsonaro sobre os atos de 8 de janeiro de 2023, quando manifestantes invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília. O candidato do PL negou categoricamente que o episódio tenha configurado uma tentativa de golpe de Estado. Em sua argumentação, ele minimizou a gravidade dos atos, citando a presença de uma “senhora com Bíblia” entre os manifestantes como um indicativo de que não se tratava de uma ação golpista organizada.

Em linha com essa visão, Flávio Bolsonaro classificou o julgamento de seu pai, Jair Bolsonaro, como uma “farsa”. O ex-presidente foi condenado a 27 anos de prisão em regime fechado pela sua participação nos atos e por incitação ao crime. “Essa farsa, a história vai mostrar que foi totalmente armado para tentar tirar Bolsonaro da vida pública”, declarou o filho, sem apresentar evidências que sustentem a alegação de um complô judicial.

A multidão que exigiu a ascensão de Jair Bolsonaro ao poder, conforme relatado pelas autoridades e evidenciado pelas imagens de vandalismo em prédios públicos como o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal, foi tratada pelo candidato como um movimento sem intenções golpistas. Essa narrativa busca desqualificar as investigações e as condenações relacionadas aos eventos, posicionando o ex-presidente como vítima de perseguição política.

Reviravolta na escala 6×1 e planos para o futuro

Em uma notável mudança de posicionamento, Flávio Bolsonaro declarou-se favorável à extinção da escala 6×1 de trabalho, medida recentemente aprovada no Senado e promulgada. O senador, que anteriormente se posicionava contra o fim dessa modalidade, afirmou ter ouvido trabalhadores em todo o país, o que o teria levado a votar a favor da proposta. Ele defendeu a liberdade do trabalhador em escolher sua jornada de trabalho.

“Eu sempre defendi mais liberdade, inclusive para os trabalhadores montarem sua jornada de trabalho. Isso pressupõe que a escala 6×1 seja extinta”, disse. Questionado sobre a manutenção das leis trabalhistas, Flávio garantiu que todas seriam preservadas, mas não detalhou como a extinção da escala 6×1 se encaixaria nesse contexto sem gerar novas discussões sobre direitos e deveres.

Sobre uma eventual reeleição, Flávio Bolsonaro reiterou seu desejo de acabar com a possibilidade de reeleição para presidente da República. Ele propôs uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que extinguiria a reeleição, deixando a cargo do Congresso Nacional a definição da duração do mandato. Segundo o candidato, essa regra já valeria para o próximo mandato, caso ele seja eleito. Ele também defendeu que parentes do presidente até o terceiro grau não possam se candidatar na sequência.

Flávio Bolsonaro também negou ter tratado com seu pai sobre uma possível vaga em seu governo caso seja eleito. Embora já tenha manifestado anteriormente a intenção de conceder indulto a Jair Bolsonaro, o candidato não confirmou se o ex-presidente ocuparia um cargo no Poder Executivo. Da mesma forma, descartou a possibilidade de seu irmão, Eduardo Bolsonaro, assumir o Ministério das Relações Exteriores, embora tenha classificado o irmão como um “perseguido político” que se sacrificou “para defender a democracia”. Eduardo Bolsonaro, que reside nos Estados Unidos, possui condenação no Brasil por coação no curso do processo.

Propostas de combate ao crime e polêmicas financeiras

Na área de segurança pública, Flávio Bolsonaro prometeu classificar facções criminosas como Comando Vermelho e PCC (Primeiro Comando da Capital) como organizações narcoterroristas. Contudo, não explicou como essa classificação mudaria, na prática, o combate ao crime organizado. Ele também defendeu mudanças na lei do desarmamento para facilitar o acesso de cidadãos a armas, argumentando que “o problema é que as armas estão nas mãos das pessoas erradas”.

O candidato evitou comentar um projeto que visa retirar a marcação de cápsulas de balas das forças de segurança, medida que, segundo especialistas, dificultaria o combate ao crime e investigações. Questionado sobre suas ligações com políticos do Rio de Janeiro envolvidos com investigações de crime organizado, como Rodrigo Bacellar e Márcio Canella, Flávio Bolsonaro expressou surpresa, mas ressaltou o direito à ampla defesa.

As relações de Flávio Bolsonaro com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que teria financiado o filme “Dark Horse” com cerca de R$ 60 milhões, também foram abordadas. O candidato insistiu que o assunto já foi esclarecido, afirmando que chegou ao nome de Vorcaro ao prospectar investidores e que o acordo ocorreu “quando não havia nada de errado”. No entanto, ele admitiu ter continuado a cobrar o dinheiro mesmo após as suspeitas de fraude no banco Master terem vindo à tona.

Acusações sobre queimadas e projeções econômicas vagas

Em uma das acusações feitas durante a sabatina, Flávio Bolsonaro afirmou que o governo atual é “recordista em queimadas na Amazônia”, citando um “outubro com maior queimada na história da nação brasileira”. No entanto, dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) contradizem essa afirmação, mostrando que, até 15 de outubro, a Amazônia registrou 9.544 focos de calor, um número significativamente inferior aos picos históricos.

No campo econômico, Flávio Bolsonaro defendeu um corte de mais de R$ 200 bilhões na dívida da União, sugerindo a venda de imóveis públicos abandonados. Ele também projetou uma arrecadação inicial de “R$ 100 bilhões de largada” com a exploração da margem equatorial, desconsiderando informações da própria Petrobras de que essa exploração só começaria após 2033. O candidato também prometeu extinguir ao menos dez ministérios, alegando que seu pai cortou milhares de cargos em comissão, o que, segundo checagens, não corresponde à realidade, pois o governo Bolsonaro registrou um aumento nesse tipo de contratação.

Almoço pré-sabatina com a emissora

Horas antes da sabatina, Flávio Bolsonaro almoçou com diretores da Rede Globo, um encontro confirmado pela emissora após a notícia vazar. O candidato foi recebido pelo presidente do Grupo Globo, José Roberto Marinho, e pelo vice-presidente de Relações Institucionais, Paulo Tonet. A Globo ressaltou que o encontro não contou com a presença de membros do jornalismo e que esse tipo de visita institucional é rotineiro.

O almoço gerou desconforto entre adversários, como Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que foi sabatinado na emissora um dia antes e não teve um encontro semelhante. A emissora justificou os encontros como “pedidos de visitas institucionais” e “encontros de cortesia” usuais para executivos e candidatos.