Saúde

Pesquisa Unicef: Sobrecarga Materna, Preço e Afeto Empurram Famílias para Ultraprocessados no Brasil

Fatores Sociais Impulsionam Consumo de Ultraprocessados por Crianças no Brasil, Indica Pesquisa do Unicef A busca por praticidade no dia a dia, o custo acessível e até mesmo laços

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Fatores Sociais Impulsionam Consumo de Ultraprocessados por Crianças no Brasil, Indica Pesquisa do Unicef

A busca por praticidade no dia a dia, o custo acessível e até mesmo laços afetivos estão levando famílias brasileiras, especialmente em áreas urbanas, a incluir alimentos ultraprocessados na dieta de seus filhos. Essa é a principal constatação de uma pesquisa divulgada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

O estudo, que ouviu cerca de 600 famílias em comunidades de Belém (PA), Recife (PE) e Rio de Janeiro (RJ), aponta um paradoxo: enquanto a maioria dos entrevistados se diz preocupada em oferecer uma alimentação saudável, a presença de ultraprocessados nas refeições infantis é significativa.

A pesquisa do Unicef detalha como a rotina agitada, a percepção de economia e até mesmo a associação de certos produtos a memórias afetivas contribuem para a escolha por esses alimentos, que são ricos em aditivos e pobres em nutrientes, mas de baixo custo e sabor intenso. Conforme informação divulgada pelo Unicef.

Sobrecarga Materna e a Praticidade dos Ultraprocessados

A pesquisa do Unicef evidencia a **intensa sobrecarga materna** na responsabilidade pela alimentação infantil. Cerca de 87% das mães entrevistadas são as responsáveis por comprar e servir os alimentos às crianças, e 82% delas também cuidam da preparação.

Em contrapartida, a participação paterna é menor, com apenas 40% comprando alimentos e 27% cozinhando. Stephanie Amaral, oficial de Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, destaca que essa divisão desigual de tarefas, aliada à necessidade de muitas mães trabalharem fora, torna a **praticidade dos alimentos ultraprocessados um fator decisivo**.

“Muitas mães fazem isso sozinhas, além de trabalhar fora. É uma sobrecarga que acaba fazendo com que a praticidade dos alimentos ultraprocessados pese muito mais”, explica Amaral, ressaltando como a conveniência desses produtos se torna um alívio em meio a tantas responsabilidades.

Desconhecimento e a Nova Rotulagem Frontal

Um dos pontos alarmantes revelados pela pesquisa é o **desconhecimento sobre o que realmente são os alimentos ultraprocessados**. Muitos produtos, como iogurtes com sabor e nuggets de frango fritos em airfryer, foram considerados saudáveis pela maioria dos entrevistados.

A nova rotulagem frontal, com avisos sobre alto teor de sódio, açúcar e gorduras saturadas, ainda não cumpre seu papel educativo plenamente. **26% dos entrevistados não sabem o significado desses avisos**, e 62% admitem que nunca deixaram de comprar um produto por causa deles.

Além disso, 55% dos participantes da pesquisa afirmaram que **nunca observam os avisos de alto teor nos rótulos**, indicando uma barreira na compreensão e aplicação dessas informações para a tomada de decisão de compra.

Preço Acessível e o Componente Afetivo nas Escolhas

A percepção de **preço baixo** é outro fator crucial que impulsiona o consumo de ultraprocessados. A maioria das famílias (67%) considera sucos de caixinha, salgadinhos e refrigerantes como baratos, enquanto legumes, verduras, frutas e carnes são percebidos como caros por uma parcela significativa.

A pesquisa aprofundada revelou também um **componente afetivo** importante. Muitas mães, ao poderem comprar para seus filhos os alimentos que não tiveram na infância, associam esses produtos a uma **infância feliz**, especialmente aqueles com personagens infantis em suas embalagens.

Stephanie Amaral complementa que os danos à saúde causados pelos ultraprocessados são cumulativos e não imediatos, tornando o controle mais difícil. Ela aponta as **escolas como aliadas essenciais**, tanto na oferta de alimentação saudável quanto na promoção de bons hábitos alimentares para as famílias.

Recomendações para um Futuro Mais Saudável

O Unicef sugere diversas ações para mitigar o consumo de ultraprocessados. Entre elas, o **fortalecimento da regulação de alimentos ultraprocessados**, incluindo a publicidade infantil e a tributação desses produtos, além da criação de ambientes escolares mais saudáveis.

A expansão de **creches e escolas em tempo integral** é vista como uma forma de fortalecer redes de apoio às famílias e reduzir a sobrecarga, especialmente das mulheres. O **fortalecimento da orientação alimentar** nos serviços de saúde, desde a gestação, também é considerado fundamental.

Por fim, o estudo recomenda **apoiar iniciativas comunitárias** como hortas e feiras, além de ampliar a compreensão e o uso da rotulagem frontal, investindo em comunicação clara para promover a mudança de comportamento e hábitos mais saudáveis.