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Bíblias com Erros Graves: De ‘Cometerás Adultério’ a ‘Grande Asno’, Impressões Infames Que Marcaram a História

A Fascinante História dos Erros Tipográficos em Bíblias e o Demônio Titivillus

Omitir ou inverter uma palavra em um texto sagrado pode alterar completamente seu significado, levando a conotações, por vezes, hilárias, outras, chocantes. A crença de que erros em cópias de textos bíblicos eram obra de um demônio chamado Titivillus, que coletava essas falhas para usar contra as almas no julgamento final, permeia a história.

Esses deslizes, quando grandes o suficiente, não apenas se tornam parte da memória cultural, mas podem ter consequências drásticas para os envolvidos. A história da impressão de Bíblias é repleta de exemplos que confirmam essa ideia, com erros que levaram a punições severas e à fama póstuma de certas edições.

Conforme informações divulgadas em relatos históricos, a figura de Titivillus, o demônio dos erros de escrita, que supostamente coletava as falhas cometidas por copistas e leitores para apresentá-las a Satanás, ilustra a antiga preocupação com a precisão dos textos sagrados. Esses erros, muitas vezes, tinham um peso significativo, especialmente quando afetavam preceitos fundamentais da fé.

A “Bíblia Malvada” e Suas Consequências Devastadoras

Um dos casos mais notórios envolve Robert Barker, um impresso inglês que, em 1631, publicou uma nova edição da Bíblia do Rei Jaime. Infelizmente, essa publicação ficou conhecida como a “Bíblia Malvada” devido a um erro crucial no Sétimo Mandamento. O mandamento “Não adulterarás” foi impresso como “Cometerás adultério”, uma omissão que teve repercussões severas.

Mil exemplares dessa edição foram impressos e, quando o erro foi descoberto um ano depois, a reação foi imediata. Barker e seu associado, Martin Lucas, foram convocados à Alta Comissão, a tiragem foi recolhida, e eles foram **severamente multados**. Além da pesada multa, a licença de impressão deles foi cassada, levando à ruína financeira e, no caso de Barker, à prisão como devedor, onde viria a falecer uma década depois.

Outros Erros Notórios Que Viraram Lendas Bíblicas

A “Bíblia Malvada” é apenas um exemplo na longa lista de erros tipográficos em Bíblias ao longo da história. O Livro de Kells, um manuscrito irlandês do século IX, apresenta uma versão curiosa de Mateus 10:34, onde a palavra latina para “espada” (gladium) foi substituída por “alegria” (gaudium), mudando o sentido de “não vim trazer paz, mas espada” para “não vim trazer paz, mas alegria”.

A “Bíblia dos criadores de lugares”, de 1562, trocou “pacificadores” (peacemakers) por “criadores de lugares” (placemakers). Já a “Bíblia Injusta” de 1653, em 1 Coríntios 6:9, omitiu uma negação, fazendo com que Paulo afirmasse que “os injustos herdarão o reino de Deus”, em vez de “os injustos não herdarão”.

A “Bíblia dos tolos” de 1763, no Salmo 14:1, inverteu o sentido ao afirmar “Diz o tolo em seu coração: Há Deus”, quando o correto seria “Não há Deus”. A “Bíblia canibal” de 1682, em Deuteronômio 24:3, trocou “odiar” por “comer”, resultando na frase perturbadora “Se o segundo marido a comer” em vez de “Se o segundo marido a odiar”.

O Legado de Titivillus e os Erros Recentes

Mesmo com o avanço da tecnologia e revisões mais rigorosas, os erros continuam a surgir. Em 1966, a The Jerusalem Bible teve um “r” perdido, transformando “Reze pela paz” em “Pague pela paz”. Em 1970, a “Bíblia da Escuridão” em João 1:5, apresentou “…e as trevas a dominaram”, em vez de “…e as trevas não a dominaram”.

Esses episódios demonstram que, apesar dos esforços humanos e automáticos, a figura do demônio Titivillus, que supostamente provoca e coleciona erros, parece continuar presente, lembrando-nos que errar é, de fato, humano, especialmente quando se trata de textos de tamanha importância e complexidade como as Sagradas Escrituras.

Um Erro Engraçado na Versão King James

Um erro notório na edição de 1611 da Bíblia do Rei Jaime, que resultou em duas versões conhecidas como “A Grande Bíblia Dele” e “A Grande Bíblia Dela”, ocorreu no livro de Rute. O versículo final de Rute 3:15 apresentava uma diferença crucial: uma versão dizia “ele entrou na cidade”, referindo-se a Boaz, enquanto a outra dizia “ela entrou na cidade”, referindo-se a Rute.

Outro deslize que quase gerou um escândalo, mas acabou sendo mais cômico, ocorreu em Deuteronômio 5:24. A palavra “greatness” (grandeza) apareceu como “great-asse”, transformando a frase “O Senhor nosso Deus nos mostrou a sua glória e a sua grandeza” em “O Senhor nosso Deus nos mostrou a sua glória e o seu grande asno”. Felizmente, na época, o termo “asse” não tinha a conotação vulgar que adquiriu posteriormente.