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Ex-embaixador dos EUA: Trump descartou Bolsonaro após derrota e prisão, vendo-o como ‘perdedor’
Ex-diplomata dos EUA revela os bastidores da relação Trump-Bolsonaro e a 'sorte' de Lula em negociações
O ex-embaixador dos Estados Unidos no Panamá, John Feeley, trouxe à tona detalhes sobre as relações políticas entre Donald Trump e o Brasil, sugerindo que a postura do ex-presidente americano em relação a Jair Bolsonaro mudou drasticamente após sua derrota eleitoral e subsequente prisão.
Segundo Feeley, a imprevisibilidade e o narcisismo de Trump foram fatores cruciais nas decisões americanas, mais do que qualquer habilidade de negociação do governo brasileiro. A mudança na percepção de Trump sobre Bolsonaro, de aliado a ‘perdedor’, teria sido o gatilho para o afastamento.
Essas declarações vêm em um momento de reavaliação das políticas americanas recentes em relação ao Brasil, incluindo a suspensão de tarifas e a retirada de sanções contra autoridades brasileiras. A análise de Feeley oferece uma perspectiva interna sobre a dinâmica de poder e as motivações por trás dessas ações, conforme relatado à BBC News Brasil.
A visão de Trump sobre ‘perdedores’ e o destino de Bolsonaro
John Feeley, que já foi considerado um dos principais especialistas em América Latina do Departamento de Estado americano, afirmou categoricamente que Donald Trump viu Jair Bolsonaro como um ‘perdedor’ após sua condenação e prisão. Para Trump, a aversão a figuras derrotadas é uma característica marcante.
“Assim que Bolsonaro perdeu, ou seja, assim que foi condenado e preso, Donald Trump o viu como um perdedor, e se há algo que Donald Trump não tolera são perdedores”, declarou Feeley.
O ex-embaixador minimizou a ideia de que Trump acompanhe de perto a política brasileira, sugerindo que o ex-presidente americano o descartou assim que o Estado de Direito prevaleceu no Brasil. “Não acho que Donald Trump saiba muito sobre Bolsonaro. Posso quase garantir que ele não acorda todos os dias pensando no Brasil”, acrescentou.
A ‘sorte’ de Lula e a imprevisibilidade de Trump nas negociações
Feeley atribuiu o resultado favorável das negociações entre o Brasil e os Estados Unidos nos últimos meses à ‘sorte’ do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele descreveu Donald Trump como um negociador extremamente imprevisível e narcisista, tornando qualquer acordo uma aposta.
“Acho que Lula, francamente, teve sorte”, disse o diplomata, aconselhando líderes a se distanciarem da órbita de Trump sempre que possível. A relação entre os EUA e o Brasil, para Feeley, é fundamental, independentemente dos líderes no poder.
Ele criticou a tendência de focar excessivamente nas relações pessoais entre líderes, especialmente com Trump, que ele descreveu como o presidente mais personalista e imprevisível da história americana. Negociar com Trump, segundo Feeley, é como tentar lidar com um homem velho, sociopata e narcisista.
Sanções americanas: lobby de Eduardo Bolsonaro e a reversão das medidas
A imposição inicial de tarifas de 40% sobre produtos agrícolas brasileiros e a inclusão de figuras do Judiciário brasileiro na lista de sanções, como o ministro Alexandre de Moraes, foram vistas por Feeley como resultado direto do lobby de Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente, em Washington.
No entanto, as medidas foram posteriormente suspensas e revertidas. Feeley acredita que essas ações foram mais influenciadas pela dinâmica interna de Trump e por lobistas da “K Street” do que por uma estratégia consciente do governo americano ou pela atuação de assessores como Marco Rubio.
“Trump pode ser manipulado por assessores da K Street, por pessoas que conseguem chegar a figuras importantes dentro do governo, e vimos isso muitas e muitas vezes nos últimos 10 meses”, explicou o ex-diplomata.
O bloqueio à Venezuela e a crítica de Feeley às sanções como causa da miséria
Em outro ponto da entrevista, John Feeley comentou o bloqueio imposto pelos Estados Unidos a navios-petroleiros sancionados da Venezuela. Ele considerou a medida mais eficaz para prejudicar o regime de Nicolás Maduro do que ações anteriores.
Feeley, no entanto, criticou a tendência de atribuir a miséria do povo venezuelano exclusivamente às sanções americanas. Ele argumentou que a principal causa é o “desastroso modelo econômico de Nicolás Maduro”.
“É sempre um erro criticar qualquer embargo ou bloqueio a um país que tem sido sistematicamente abusado pelos seus próprios líderes nas últimas duas décadas, atribuindo-o como a principal causa da miséria da população”, disse. Ele ressaltou, porém, que sanções podem ter efeitos secundários, mas não são a causa primária do sofrimento.


