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Israel Reconhece Somalilândia: Um ‘Oásis’ de Estabilidade no Chifre da África Busca Independência Há 30 Anos
Somalilândia: O Primeiro Reconhecimento Internacional Após Mais de Três Décadas de Independência Não Oficial
A Somalilândia, um território com cerca de 3,5 milhões de habitantes e tamanho comparável ao da Nicarágua, declarou sua independência da Somália em 1991. Após mais de 34 anos operando como um país autônomo, mas sem reconhecimento formal, Israel se tornou a primeira nação a reconhecer oficialmente a Somalilândia como um Estado soberano na sexta-feira, 26 de janeiro. Essa decisão marca um momento histórico para a região, descrita como um ‘oásis de estabilidade’ no turbulento Chifre da África.
A notícia do reconhecimento israelense foi recebida com entusiasmo pelo presidente da Somalilândia, Abdirahman Mohamed Abdullahi, que a classificou como um “momento histórico”. No entanto, a iniciativa gerou forte condenação por parte de ministros das Relações Exteriores da Somália, Egito, Turquia e Djibuti, que emitiram um comunicado expressando sua “rejeição total” ao anúncio de Israel. A esperança é que o reconhecimento israelense possa encorajar outras nações a seguir o exemplo, fortalecendo a posição diplomática da Somalilândia e seu acesso a mercados internacionais.
A história da Somalilândia é marcada por uma busca contínua por autodeterminação. O território, com 137.600 km², foi um protetorado britânico até sua independência em 26 de junho de 1960. Pouco tempo depois, se fundiu com a Somalilândia Italiana, uma união que muitos somalilandeses lamentaram. As diferenças com o sul da Somália se acentuaram, culminando em um referendo para uma nova Constituição em 1961, que foi amplamente rejeitado pelos somalilandeses, mas aprovado. A situação se deteriorou ainda mais com o golpe militar do General Mohamed Siad Barre em 1969, que transformou a Somália na República Democrática da Somália.
O Legado de Siad Barre e a Luta pela Autonomia
O regime de Siad Barre intensificou o descontentamento na Somalilândia, alimentando o desejo por um caminho distinto. Barre, um oficial marxista-leninista, promoveu políticas que geraram descontentamento em todo o país, culminando em uma revolução. Relatórios posteriores, como um encomendado pela ONU no início do século, indicaram que o governo somali perpetrou crimes de genocídio contra o povo Isaaq entre 1987 e 1989. Durante esse período, a capital da Somalilândia, Hargeisa, sofreu bombardeios em larga escala, resultando na morte de milhares de civis e na destruição parcial da cidade.
Após anos de conflito sangrento, Siad Barre foi deposto em 1991, evento que desencadeou uma guerra civil e levou a Somalilândia a declarar unilateralmente sua independência. Desde então, o território tem funcionado como um “oásis” de relativa calma em uma região marcada pela instabilidade. Possui seu próprio sistema político, parlamento, força policial, bandeira, moeda e emite passaportes, operando de fato como um país independente.
Desafios Diplomáticos e a Comparação com Taiwan
A falta de apoio internacional para a Somalilândia foi agravada por uma crise diplomática com a Somália após um acordo assinado em janeiro de 2024 entre a Etiópia e a Somalilândia. O acordo concede à Etiópia acesso ao mar através do porto de Berbera, um passo visto como um caminho para o eventual reconhecimento da Somalilândia. Mogadíscio, a capital da Somália, denunciou o acordo como uma violação de sua soberania, reafirmando que a Somalilândia é parte inseparável do país.
O caso da Somalilândia é frequentemente comparado ao de Taiwan. Ambos os territórios declaram orgulhosamente sua independência de vizinhos maiores — Somália e China, respectivamente — que insistem que as áreas rebeldes fazem parte de seus territórios. Em 2020, Hargeisa e Taipei fortaleceram seu relacionamento e estabeleceram laços diplomáticos oficiais, provocando a ira de seus vizinhos. O representante taiwanês na Somalilândia, Allen Chenhwa Lou, descreveu a relação como “ganha-ganha”, destacando que ambos os territórios buscam reconhecimento internacional.
Um Modelo de Democracia e Estabilidade Regional
Além da questão política, a Somalilândia se destaca por sua relativa paz e estabilidade em comparação com o resto da Somália. Especialistas a consideram um exemplo de democracia na região, com líderes eleitos por meio de eleições disputadas e resultados respeitados. Apesar de enfrentar pobreza generalizada e alto desemprego, Hargeisa é considerada uma das cidades mais seguras da região.
A jornalista da BBC Mary Harper, em 2016, descreveu a Somalilândia como tendo “relativa paz e estabilidade”, contrastando fortemente com a situação na Somália, onde jornalistas ocidentais precisam de escoltas armadas. Essa estabilidade é atribuída aos esforços desde a década de 1990, com anciãos locais atuando como mediadores e formando um governo local que compartilha o poder. A decisão final sobre a independência da Somalilândia, no entanto, provavelmente dependerá de Mogadíscio, seguindo o precedente da secessão do Sudão do Sul.


