Política

Lula apela por paz global, critica corrida armamentista e questiona papel da ONU em conferência da FAO

Lula faz apelo por paz e critica gastos com armas em evento da FAO O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um forte apelo pela paz mundial e pela priorização do combate à fome

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Lula faz apelo por paz e critica gastos com armas em evento da FAO

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um forte apelo pela paz mundial e pela priorização do combate à fome, em detrimento da crescente corrida armamentista global. Durante a abertura da 39ª Conferência Regional da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para a América Latina e o Caribe, Lula destacou o paradoxo de vultosos investimentos em armamentos enquanto milhões sofrem com a insegurança alimentar.

Em seu discurso, o presidente brasileiro apresentou dados alarmantes sobre os gastos militares globais, sugerindo que os recursos poderiam erradicar a fome no planeta. Ele ressaltou que a América Latina e o Caribe representam uma “única zona de paz” no mundo, contrastando com o cenário de conflitos em outras regiões.

As declarações de Lula ganham destaque em um momento de tensões geopolíticas acentuadas e de debates sobre o fortalecimento de capacidades militares por diversas nações. O presidente reiterou a posição brasileira em favor da diplomacia e da cooperação internacional para a solução de conflitos e a promoção do desenvolvimento sustentável.

Conforme informações divulgadas durante o evento, Lula dirigiu um apelo direto aos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU): França, Inglaterra, Rússia, China e Estados Unidos. Ele questionou a concentração de esforços e recursos em armamentos, em vez de focar na erradicação da fome.

O paradoxo dos gastos militares globais

Lula apresentou um dado contundente ao afirmar que os US$ 2,7 trilhões gastos em armamentos no ano passado poderiam ter sido distribuídos entre os 630 milhões de pessoas que passam fome no mundo. Segundo seus cálculos, cada indivíduo em situação de insegurança alimentar receberia cerca de US$ 4.285, um valor suficiente para reverter o quadro de fome globalmente.

“Se pegássemos o dinheiro que foi gasto, no ano passado, em armamentos, em conflitos – o equivalente a US$ 2,7 trilhões – e dividíssemos entre os 630 milhões de seres humanos que, no planeta, passam fome, daria pra ter distribuído US$ 4.285 para cada pessoa”, discursou o presidente, enfatizando a irracionalidade da situação.

Ele questionou a lógica de priorizar a indústria bélica em detrimento das necessidades básicas da população mundial. “Vocês percebem que não precisaria ter fome no mundo se houvesse o bom senso dos governantes?”, indagou, direcionando suas críticas à falta de prioridade dada ao combate à fome por parte de líderes mundiais.

América Latina como zona de paz e a crítica à ONU

Durante seu pronunciamento, Lula destacou a América Latina e o Caribe como “a única zona de paz no mundo”. Ele mencionou a posição constitucional do Brasil de não possuir armas nucleares como um exemplo do compromisso com a pacificação.

“Aqui no Brasil, temos a opção de não possuir armas nucleares na nossa Constituição. Há muito tempo, a gente chegou à conclusão de que aquele ditado que diz que quem quer paz se prepara para a guerra é para quem quer fazer guerra. Nós queremos paz porque a paz é a única possibilidade de fazer com que a humanidade avance”, declarou o presidente.

Contudo, Lula não poupou críticas à Organização das Nações Unidas (ONU), avaliando que a instituição está perdendo sua credibilidade e não cumprindo seu papel original. “A ONU está ficando desacreditada. A ONU não está cumprindo aquilo que está escrito na sua carta de criação, em 1945”, afirmou.

O presidente questionou a inércia da organização diante dos conflitos globais. “A ONU está cedendo ao fatalismo dos senhores das guerras e não tem espaço para senhores da paz. Por que a ONU já não convocou uma conferência mundial para discutir esses conflitos?”, indagou, mostrando frustração com a postura da entidade.

Apelo direto aos membros permanentes do Conselho de Segurança

O discurso de Lula foi direcionado explicitamente aos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU: França, Inglaterra, Rússia, China e Estados Unidos. Ele os instou a focar na erradicação da fome em vez de se envolverem em discussões sobre o fortalecimento de armamentos.

“Se esses senhores, que coordenam o Conselho de Segurança como membros permanentes da ONU, se preocupassem com essa questão da fome neste instante ao invés de ficarem discutindo, como agora está se discutindo na Europa, o fortalecimento do armamento dos países, investimentos na defesa”, pontuou.

Lula criticou a mentalidade que, segundo ele, prevê o agravamento de conflitos e, consequentemente, incentiva a produção de mais armas. “Está todo mundo pensando que vão se agravar os conflitos. E todo mundo quer mais armas, todo mundo quer mais bomba atômica, todo mundo quer mais drone, todo mundo quer aviões de caça cada vez mais caros.”

Ele ressaltou que esses investimentos não visam à produção de alimentos, mas sim à destruição. “E tudo isso não é feito para construir ou para produzir alimentos. Isso é feito para destruir e para diminuir a produção de alimentos ou destruir aquilo que já está plantado”, lamentou.

Críticas à reconstrução de Gaza e à retórica bélica

O presidente brasileiro também criticou a iniciativa do governo de Donald Trump de criar um Conselho de Paz voltado para a reconstrução da Faixa de Gaza, após um período de intensos bombardeios. Lula questionou a validade de tal proposta em meio à destruição e perda de vidas.

“Compensou destruir Gaza, matando a quantidade de mulheres e crianças que mataram, para agora aparecerem com pompa, criando um conselho para dizer: ‘Vamos reconstruir Gaza’?”, questionou, com veemência.

Ele comparou a iniciativa a um “resort” para férias em um local marcado pela tragédia, criticando a hipocrisia percebida na proposta. “Aí aparece como se fosse um resort, para passar férias no lugar onde estão os cadáveres das mulheres e das crianças que morreram”, disse, demonstrando indignação.

Lula enfatizou a necessidade de ação e de denúncia diante de tais situações. “Muitas vezes, a gente fica impassível. E, se a gente não gritar, não falar, não se mexer, nada acontece”, afirmou, conclamando a um engajamento ativo pela paz e pela justiça.

O presidente reiterou que a fome não é um problema de intempéries, mas sim de irresponsabilidade política. “A fome não é por um problema de intempéries, não é porque tem excesso de frio e excesso de calor. A fome só existe porque existe uma coisa chamada excesso de irresponsabilidade naqueles que são eleitos para ter responsabilidade”, concluiu.

A busca pela paz e a produção de alimentos

Em sua fala final, Lula fez um contraponto entre a retórica de poder bélico e a possibilidade de um discurso focado na produção e distribuição de alimentos. Ele citou o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e sua ostentação com capacidades militares.

“Vocês acham normal o presidente Trump ficar, todo dia, dizendo: ‘Tenho o maior navio do mundo, tenho o maior exército do mundo’. Por que ele não fala: ‘Tenho a maior capacidade de produção de alimento do mundo, tenho como distribuir alimento’”, questionou.

Lula encerrou sua participação na conferência ressaltando a simplicidade e o impacto positivo que uma comunicação focada na segurança alimentar teria. “Não era muito mais simples? E soaria melhor aos nossos ouvidos”, finalizou, reforçando sua visão de um mundo mais justo e pacífico, onde a produção de alimentos seja prioridade.