Política
Lula cogita expulsar agentes dos EUA após delegado da PF ser expulso; Brasil acusa ‘abuso de autoridade’
Lula ameaça expulsar agentes americanos do Brasil em retaliação a medida contra delegado da PF O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sinalizou nesta terça-feira (21) a possib
Lula ameaça expulsar agentes americanos do Brasil em retaliação a medida contra delegado da PF
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sinalizou nesta terça-feira (21) a possibilidade de expulsar agentes dos Estados Unidos que atuam no Brasil, em uma resposta direta à determinação do governo norte-americano para a saída de um delegado da Polícia Federal brasileira.
O delegado Marcelo Ivo de Carvalho, que servia em Miami, foi informado que deveria deixar os EUA sob a alegação de ter “contornado pedidos formais de extradição e estendido perseguições políticas” em território americano. A decisão pegou de surpresa a Polícia Federal e o governo brasileiro, que consideram a ação um “abuso de autoridade”.
A declaração de Lula ocorreu em Hannover, na Alemanha, onde o presidente cumpre agenda oficial. Ele afirmou que, se houve um “abuso americano” contra o policial brasileiro, o Brasil aplicará a mesma medida de reciprocidade contra agentes dos EUA em seu território, buscando um relacionamento baseado no respeito e na correção.
Conforme informações divulgadas pelo presidente Lula, o caso gerou forte reação no governo brasileiro.
Brasil reage e critica “ingerência” dos EUA
Em meio à agenda oficial na Alemanha, o presidente Lula expressou sua insatisfação com a medida adotada pelos Estados Unidos. “Se houve um abuso americano com relação ao nosso policial, nós vamos fazer a reciprocidade com o dele no Brasil. Não tem conversa”, declarou o presidente a jornalistas.
Lula enfatizou a necessidade de que as relações internacionais ocorram de forma correta e transparente, criticando a “ingerência e o abuso de autoridade” que, segundo ele, algumas autoridades norte-americanas tentam impor ao Brasil. A expectativa é que o delegado Marcelo Ivo de Carvalho retorne ao Brasil ainda nesta terça-feira.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, que acompanhava Lula na viagem, também se pronunciou sobre o caso. Ele ressaltou que a medida americana “não tem fundamento”, visto que o delegado brasileiro em Miami atua em cooperação com as autoridades locais, com base em um memorando de entendimento entre as polícias dos dois países.
“Todos sabiam e trabalharam em conjunto. Estamos aguardando esclarecimentos das autoridades americanas sobre a razão desta medida tomada”, pontuou o ministro, indicando que o Itamaraty ainda busca uma confirmação oficial e explicações concretas sobre a expulsão.
Delegado atuava na cooperação policial internacional há mais de dois anos
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, confirmou que o delegado Marcelo Ivo de Carvalho está há mais de dois anos em missão nos Estados Unidos, colaborando na identificação e captura de foragidos brasileiros. Sua atuação faz parte de um amplo programa de cooperação policial que o Brasil mantém com 34 países.
“Fazendo atividade de cooperação policial como fazemos com 34 países. Agora [vamos] aguardar formalmente algum esclarecimento para, a partir disso, adotarmos qualquer medida”, explicou Rodrigues, reiterando a surpresa do órgão com a decisão americana.
Documentos obtidos pela imprensa indicam que a nomeação de Carvalho para a função de “oficial de ligação no Immigration and Customs Enforcement (ICE), em Miami/Estados Unidos” foi assinada por Andrei Rodrigues há cerca de um mês, com a designação de Tatiana Alves Torres como sua substituta. O mandato inicial do delegado era de dois anos, mas foi prorrogado até agosto deste ano.
A Polícia Federal brasileira e o Itamaraty não foram formalmente comunicados pelos Estados Unidos sobre a determinação de saída do agente. A falta de comunicação oficial reforça a percepção de surpresa e a insatisfação do governo brasileiro com os procedimentos adotados.
EUA acusa delegado de “contornar pedidos formais” e promover “perseguições políticas”
A ordem para a saída do delegado brasileiro foi divulgada pelo Escritório para Assuntos do Hemisfério Ocidental do governo dos Estados Unidos através de uma nota oficial em redes sociais. Sem citar nominalmente o delegado, o comunicado acusou uma autoridade brasileira de tentar “contornar pedidos formais de extradição” e de promover “perseguições políticas” em território americano.
“Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos. Hoje, pedimos que o funcionário brasileiro em questão deixe o país por tentar fazer isso”, diz a nota oficial.
O delegado Marcelo Ivo de Carvalho estava lotado junto ao Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos (ICE), em Miami. Sua missão principal era auxiliar na localização e prisão de brasileiros procurados pela Justiça. A atuação em cooperação internacional é comum e visa fortalecer o combate à criminalidade transnacional.
A prorrogação do mandato do delegado até agosto deste ano, decidida pelo governo brasileiro, demonstrava a continuidade e a importância da missão. A alegação de “perseguição política” e “manipulação do sistema de imigração” por parte dos EUA contrasta com a natureza cooperativa da função exercida pelo policial.
Vice-presidente Alckmin adota tom cauteloso, mas reforça “lógica da reciprocidade”
Em Brasília, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) adotou um tom mais cauteloso, afirmando que o governo brasileiro ainda está reunindo informações sobre a expulsão do delegado da PF para definir os próximos passos. “Essa é uma decisão do governo norte-americano, vamos aguardar”, disse.
Alckmin, no entanto, reforçou o princípio da reciprocidade que guia as relações diplomáticas do Brasil. “O Brasil sempre tem a lógica da reciprocidade, mas vamos aguardar”, pontuou, ressaltando que ainda não possuía informações oficiais detalhadas sobre a expulsão.
Fontes próximas ao assunto indicaram que o vice-presidente está acompanhando de perto as apurações sobre as circunstâncias da decisão dos Estados Unidos. Uma reunião fechada com o delegado Marcelo Ivo de Carvalho está prevista para ocorrer assim que ele retornar ao Brasil, possivelmente ainda nesta terça-feira.
A situação diplomática gerada pela expulsão do delegado levanta questionamentos sobre a colaboração entre os órgãos de segurança pública dos dois países e pode impactar futuras operações conjuntas. O governo brasileiro busca um posicionamento oficial claro dos EUA para poder agir de forma assertiva.
Contexto de tensões diplomáticas e críticas de Lula a Trump
A expulsão do delegado da Polícia Federal brasileira ocorre em um momento delicado, marcado por recentes críticas do presidente Lula ao ex-presidente norte-americano Donald Trump. Lula tem acusado Trump de agir como um “imperador do mundo”, com poder para “taxar produtos, punir países e fazer guerra” por meio de redes sociais.
Essas declarações ocorrem em meio a preparativos para uma visita oficial de Lula a Washington, que já foi adiada uma vez e ainda não tem data definida. A viagem, que estava prevista para março, foi postergada devido a conflitos internacionais, e a possibilidade de ocorrer em abril ficou condicionada ao andamento das negociações diplomáticas.
A tensão diplomática em torno da expulsão do delegado pode adicionar um novo elemento às complexas relações entre Brasil e Estados Unidos, especialmente considerando as diferentes visões políticas e ideológicas que marcam os governos de Lula e de Trump, caso este retorne à presidência.
O episódio reforça a postura do governo brasileiro em defender a soberania nacional e rejeitar o que considera ingerência externa em assuntos internos ou em suas operações de cooperação internacional. A resposta do Brasil, baseada na reciprocidade, sinaliza a intenção de manter um equilíbrio nas relações diplomáticas e de segurança.
A comunidade de inteligência e segurança pública acompanha de perto os desdobramentos, pois a cooperação internacional é fundamental para o combate a crimes como tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e terrorismo, que frequentemente cruzam fronteiras. A resolução deste impasse será crucial para a manutenção da confiança e da eficácia dessas parcerias.


