Política
Violência Política no Brasil: Mulheres São Alvos Predominantes em Cenário de Ameaças e Intimidação
Violência Política Atinge Mulheres com Intensidade Preocupante no Brasil A crescente onda de violência política no Brasil tem revelado um quadro alarmante, com mulheres se configur
Violência Política Atinge Mulheres com Intensidade Preocupante no Brasil
A crescente onda de violência política no Brasil tem revelado um quadro alarmante, com mulheres se configurando como as maiores vítimas de ameaças e intimidações durante o período eleitoral. O caso da deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG), que denunciou ter recebido ameaças de morte e violência sexual, ilustra a gravidade da situação que assola o cenário político nacional.
Um estudo recente divulgado pelas organizações de direitos humanos Terra de Direitos e Justiça Global aponta que, em apenas 50 dias de campanha para o primeiro turno das eleições de 2026, foram registrados 134 casos de violência política. Essa média representa um ataque a cada nove horas, e a maioria dessas agressões teve como alvo mulheres, evidenciando um padrão preocupante de desqualificação e intimidação de gênero no âmbito público.
A pesquisa detalha que, dos 102 episódios direcionados especificamente a candidatas, 60 tiveram mulheres como vítimas, o que corresponde a 58,8%. Mesmo representando aproximadamente um terço das candidaturas totais, elas se tornaram alvo em mais da metade dos incidentes de violência política, um reflexo direto da misoginia e do machismo estrutural que ainda permeiam a sociedade brasileira e o espaço político.
Mulheres Enfrentam Maiores Riscos em Disputas Eleitorais
Conforme informações divulgadas pelas organizações de direitos humanos Terra de Direitos e Justiça Global, a violência política de gênero é um mecanismo utilizado para desqualificar e intimidar mulheres que buscam participar ativamente da vida pública. Gisele Barbieri, coordenadora de Incidência Política da Terra de Direitos, ressalta que o cenário é extremamente preocupante para a democracia brasileira, pois a hostilidade afasta potenciais lideranças femininas.
A especialista aponta que o ambiente digital tem se tornado um terreno fértil para agressões sistemáticas, com a falta de regulamentação das redes sociais dificultando o combate a essas violações. No entanto, o estudo revela que a maioria dos casos, 71 episódios, ocorreu nas ruas, indicando que a violência física e a intimidação direta ainda são as táticas mais frequentes para silenciar vozes femininas na política.
A pesquisa mapeou 134 casos de violência política durante os 50 dias da campanha eleitoral para o primeiro turno, que se iniciou em 16 de agosto e encerrou-se no último domingo, 4 de setembro. A ameaça foi o tipo de violência política mais recorrente, com 64 casos registrados, seguida por 33 episódios de ofensa e 19 de agressão física. Foram também contabilizados 11 atentados, cinco casos de criminalização e dois assassinatos.
Subnotificação e Medo Amplificam o Problema da Violência Política
Gisele Barbieri explica que a pesquisa se baseia principalmente em registros que chegam ao conhecimento público, o que sugere uma subnotificação significativa. A falta de denúncias é um fator crucial, pois muitas vítimas, especialmente mulheres, sentem-se ainda mais expostas pela ausência de respostas ou providências por parte das autoridades policiais. O medo de represálias ou de não serem levadas a sério contribui para que muitos casos não cheguem à opinião pública.
A pesquisadora defende a implementação de providências e punições ágeis, com caráter pedagógico, para combater a naturalização desses atos. A violência política, segundo ela, gera rupturas profundas no sistema democrático, exigindo uma resposta firme e proporcional por parte do Estado. A equipe pesquisadora ressalta que, até o encerramento da coleta de dados, nenhum dos 134 episódios registrados resultou em punição para os autores.
A violência política registrada neste período representa um aumento em relação ao primeiro turno de 2022, quando foram contabilizados 121 casos. A pesquisa, em sua quarta edição, indica que a violência política foi cinco vezes mais frequente durante a campanha eleitoral do que em períodos sem disputa eleitoral, quando a média era de uma ocorrência a cada 44 horas. A coordenadora da Terra de Direitos considera inadmissível a normalização desses episódios, que visam intimidar propostas e a atuação de representantes políticos.
Misoginia e Racismo Estruturam a Violência Contra Mulheres e Minorias
Dos 70 episódios de violência direcionados a mulheres, 45 foram motivados por machismo ou misoginia, nove por racismo e cinco por transfobia. A pesquisa detalha ainda que, entre os 32 episódios de violência física (agressões, atentados e assassinatos), as mulheres foram vítimas em 21,9% dos casos. Já na violência simbólica, que inclui ameaças e ofensas, as mulheres foram alvos em 61,9% das ocorrências (60 casos).
Os dois assassinatos e dez dos 11 atentados registrados tiveram homens como vítimas. Em contrapartida, as sete ameaças de violência sexual documentadas tiveram mulheres como vítimas exclusivas, evidenciando a especificidade e a gravidade da violência de gênero. Glaucia Marinho, coordenadora da Justiça Global, destaca que, enquanto homens são frequentemente atacados por sua atuação política, mulheres, pessoas negras e trans enfrentam, além disso, o racismo, o machismo e a transfobia que estruturam a sociedade brasileira.
Pessoas negras representaram 44,8% de todas as vítimas de violência política no primeiro turno, totalizando 60 casos. Entre as mulheres vítimas, 19 eram negras, o que significa que mais de uma em cada quatro mulheres agredidas politicamente pertencia a este grupo. Essa intersecção de marcadores sociais demonstra como a violência política se agrava para mulheres negras e outros grupos minorizados.
Agentes Públicos e Falta de Punição: Um Ciclo de Impunidade
A pesquisa também investigou os responsáveis pelas violências, identificando que em 26 episódios (19,4% do total), o autor era um agente público. Desses, pelo menos 14 eram parlamentares ou governantes, e sete eram agentes de segurança. Essa constatação aponta para um problema grave de abuso de poder e impunidade dentro das próprias instituições responsáveis pela garantia da ordem e da democracia.
Um dado alarmante é que nenhum dos 134 episódios registrados resultou em punição até o encerramento da coleta de dados. Durante a campanha, foram tomadas medidas de urgência em pelo menos oito casos, como a remoção de vídeos, suspensão de perfis e concessão de medidas protetivas. Contudo, essas ações, embora importantes para interromper a violência imediata, não representam a responsabilização efetiva dos autores.
Os estados com o maior número de ocorrências de violência política foram São Paulo (16 casos), Rio Grande do Norte (13), Minas Gerais (12) e Rio Grande do Sul (10). A concentração de casos em diferentes regiões do país reforça a necessidade de uma abordagem nacional e coordenada para combater esse fenômeno e garantir a segurança e a participação plena de todos na vida política.


