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Yaras em Busca da Elite: Rugby Feminino Brasileiro Mira Ascensão Histórica em Torneio Decisivo

Yaras lutam por vaga na elite do rugby mundial em março decisivo O mês de março representa um divisor de águas para o rugby feminino brasileiro.

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Yaras lutam por vaga na elite do rugby mundial em março decisivo

O mês de março representa um divisor de águas para o rugby feminino brasileiro. As Yaras, como são carinhosamente chamadas as jogadoras da seleção, terão pela frente as etapas finais da segunda divisão do Circuito Mundial de rugby sevens. A disputa promete ser acirrada, com o Brasil buscando uma das vagas para ascender à elite da modalidade e se consolidar no cenário internacional.

As partidas cruciais acontecerão em dois fins de semana consecutivos. Nos dias 21 e 22 de março, a equipe brasileira estará em Montevidéu, no Uruguai, jogando no Estádio Charrúa. Logo em seguida, entre os dias 28 e 29 de março, o palco será o Estádio Nicolau Alayon, em São Paulo, onde as Yaras contarão com o apoio da torcida local.

A importância dessas etapas é imensa, pois o desempenho das Yaras definirá seu futuro no circuito. Uma boa colocação garantirá a participação na primeira divisão, abrindo portas para disputar contra as potências mundiais do rugby sevens e elevando o patamar do esporte no Brasil.

Conforme informações divulgadas pela World Rugby, a entidade máxima do esporte, a competição em 2024 na segunda divisão é um trampolim para a elite, onde as equipes competem em etapas de prestígio como Hong Kong, Valladolid e Bordeaux.

Thalia Costa: A Estrela Brasileira que Brilha no Cenário Mundial

No universo do rugby feminino, o Brasil possui um trunfo de valor inestimável: Thalia Costa. A maranhense de 28 anos não é apenas uma jogadora excepcional, mas uma atleta que já alcançou reconhecimento internacional de altíssimo nível. Na temporada passada, seu talento foi coroado com a inclusão no “Time dos Sonhos” do Circuito Mundial, uma honraria reservada às melhores jogadoras do planeta, ao lado de atletas de países com vasta tradição no rugby, como Nova Zelândia, Austrália e Japão.

O feito de Thalia é ainda mais significativo quando se considera o contexto do rugby brasileiro, que ainda busca consolidar sua presença entre as potenças globais. Sua ascensão demonstra a evolução e o potencial do esporte no país. Além disso, ela figura na 14ª posição do ranking histórico de pontuadoras do circuito, evidenciando sua consistência e impacto ao longo de suas participações.

Em sete participações no circuito, Thalia acumulou impressionantes 127 tries, que equivalem aos gols no futebol, marcando sua presença constante na área de pontuação adversária. Na temporada anterior, ela marcou 29 tries em apenas seis etapas, posicionando-se como a terceira maior artilheira da competição, um feito notável em um cenário tão competitivo.

A própria Thalia demonstra uma humildade admirável ao falar sobre seu desempenho. “Eu tenho essa noção [de que está entre as melhores do mundo], mas não sei te dizer se ela parece ser real. Às vezes, eu me pergunto se jogo tudo isso, se é possível. Mas olho para minha trajetória e vejo que sim e que ainda estou em uma constante evolução, ainda tenho muito para aprender”, declarou em entrevista à TV Brasil.

Velocidade e Adaptação: Os Segredos do Sucesso de Thalia

A principal arma de Thalia Costa em campo é sua velocidade impressionante. Capaz de ultrapassar os 30 quilômetros por hora em arrancadas em direção à linha de fundo, sua agilidade é um diferencial crucial no rugby sevens. Essa habilidade tem raízes em seu passado no atletismo, onde se destacava nas provas de 100 e 200 metros, mesmo em condições adversas, como correr descalça em pedras.

A técnica da seleção feminina, a neozelandesa Crystal Kaua, elogia as qualidades da atleta. “A Thalia é super rápida, mas também muito em forma, o que significa que pode utilizar repetidamente a velocidade. É como as motocicletas em São Paulo. Ela é pequena e veloz. Encontra os espaços e os aproveita. Ela joga da maneira que acreditamos ser muito bom para o Brasil”, afirmou Kaua à TV Brasil, destacando a inteligência de jogo e a capacidade de Thalia de explorar as brechas na defesa adversária.

A transição de Thalia para o rugby ocorreu em 2017, e sua convocação para a seleção brasileira veio apenas dois anos depois. A mudança para São Paulo, onde as Yaras treinam, representou um desafio pessoal, pois ela é muito apegada à família. No entanto, a presença de sua irmã gêmea, Thalita, que também joga pela seleção, ameniza a saudade e fortalece o vínculo entre as duas.

Thalita compartilha a inspiração que a irmã representa. “Eu estava em uma fase da vida em que achava que precisava procurar outra coisa. Estudar, fazer faculdade. Mas eu acabei me inspirando na garra e na força que ela [Thalia] tem para realizar os sonhos dela. Isso cresceu em mim esse sentimento de que ainda conseguiria [viver do esporte], de que era capaz. Sempre fizemos tudo juntas. Então, é um privilégio muito grande tê-la como irmã e inspiração”, contou Thalita à TV Brasil. A cumplicidade e o apoio mútuo são evidentes, refletindo a força do núcleo familiar no percurso das atletas.

Experiência Internacional e o Desafio da Elite

O talento de Thalia Costa não passou despercebido no cenário internacional. Após defender o Brasil no circuito mundial, a maranhense foi convidada para disputar a liga local de rugby sevens no Japão, ao lado de sua companheira de seleção, a carioca Gabriela Lima. Representando o clube Mie Pearls, Thalia viveu sua primeira experiência atuando no exterior, uma oportunidade que, de início, não imaginava buscar.

“Falando a verdade, eu nunca tive vontade de sair do Brasil e experimentar o mundo pelo rugby. Mas quando surgiu essa oportunidade, e como gosto muito do Japão e da cultura japonesa, falei: ‘vamos testar’. E foi incrível. Parecia que já conhecia todo mundo do time há muito tempo. E nem entendia a língua [risos]. Fizemos história, ganhamos etapas [da liga] que elas não tinham ganho ainda. Tanto que quero voltar!”, relatou Thalia, demonstrando entusiasmo com a experiência e o sucesso alcançado.

Essa vivência internacional, especialmente em um país com forte tradição no rugby, certamente agregou valiosos aprendizados e confiança para Thalia e, por extensão, para toda a equipe das Yaras. A capacidade de adaptação e o desempenho em um ambiente cultural e esportivo diferente são testemunhos de sua resiliência e talento.

O objetivo principal do Brasil é claro: finalizar o circuito entre as quatro melhores seleções da segunda divisão. Isso garantirá a tão sonhada vaga na elite do rugby mundial, abrindo caminho para competir em etapas do Campeonato Mundial, que reunirá 12 equipes em sedes como Hong Kong, Valladolid (Espanha) e Bordeaux (França). Para Thalia, representar o Brasil nessas competições seria a concretização de um sonho e um marco para o esporte nacional.

O Caminho Até Agora e os Próximos Passos

A jornada das Yaras na segunda divisão do Circuito Mundial de Sevens em 2024 começou com desafios. Na primeira etapa, realizada em Nairóbi, Quênia, entre 14 e 15 de fevereiro, a equipe brasileira não obteve os resultados esperados, ficando na sexta e última colocação com apenas uma vitória em cinco jogos. A Argentina liderou a etapa, seguida por África do Sul, Espanha, China e pela seleção anfitriã.

Apesar do resultado inicial, a confiança na equipe e no trabalho da comissão técnica permanece. A treinadora Crystal Kaua tem focado na renovação e na integração de novas jogadoras, visando construir uma equipe forte para o futuro. Thalia Costa, como uma das líderes e atletas mais experientes, sente a responsabilidade de guiar essa transição.

“Ainda mais pela troca que a treinadora tem feito, de trazer jogadoras mais novas, eu me sinto no dever de fazer com que essa transição seja das melhores possíveis. Mas eu acho que vai dar bom. A gente está começando a se conectar melhor, entender uma à outra. Coisas boas estão por vir”, concluiu a artilheira. Sua visão otimista reflete o espírito de união e determinação da equipe.

Thalia Costa já tem um histórico de representação olímpica, tendo participado dos Jogos de Tóquio 2020 e Paris 2024. Além disso, conquistou a medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos de Santiago, no Chile, em 2023, demonstrando sua capacidade de competir em alto nível em diferentes formatos e competições. Agora, o foco está em levar o rugby feminino brasileiro para a elite mundial, um passo crucial para o desenvolvimento e a popularização do esporte no país.