Política

Zema intensifica ofensiva contra o STF e mira discurso nacional em 2026, apostando em popularidade do tema na direita

Zema mira no STF e eleva tom em pré-campanha para 2026 O ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), intensificou sua retórica crítica ao Supremo Tribunal Federal (STF), tran

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Zema mira no STF e eleva tom em pré-campanha para 2026

O ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), intensificou sua retórica crítica ao Supremo Tribunal Federal (STF), transformando a Corte em um pilar central de sua estratégia de pré-campanha presidencial para 2026. A escalada do embate público com o ministro Gilmar Mendes serviu como catalisador para Zema, que busca ampliar sua visibilidade e consolidar seu nome na disputa pelo Planalto.

Ao responder diretamente a Gilmar Mendes, Zema questionou a imparcialidade e a natureza técnica das decisões do STF, insinuando motivações políticas. O pré-candidato declarou que não se sente intimidado e que continuará a criticar o tribunal, aprofundando um confronto que visa marcar posição no cenário político nacional.

A troca de farpas teve início após Mendes classificar como irônico o ataque de Zema ao STF, lembrando que o próprio ex-governador já recorreu à Corte para obter benefícios financeiros para o estado de Minas Gerais. Zema rebateu a crítica, questionando a motivação por trás das decisões favoráveis ao estado.

Estratégia de Confronto: Zema busca nacionalizar o discurso

A articulação de Romeu Zema em colocar o STF no centro de sua pré-campanha é vista como um movimento estratégico para ascender do plano regional para o debate nacional. A intensificação do confronto com a Corte, especialmente após a troca de críticas com Gilmar Mendes, é apontada por aliados do Novo como uma forma eficaz de aumentar a projeção do pré-candidato e inserir seu nome em uma agenda que ressoa com uma parcela significativa do eleitorado da direita.

Integrantes do partido admitem que, ao adotar um discurso mais incisivo contra o STF, criticando o que chamam de “ativismo judicial” e propondo reformas na Corte, Zema tenta ocupar um espaço político já explorado por outras lideranças da direita, como o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A estratégia visa capitalizar sobre o descontentamento de parte do eleitorado com o papel e as decisões do Judiciário.

Na apresentação das diretrizes de sua pré-campanha, Zema reforçou a necessidade de uma revisão no papel e no funcionamento do STF, argumentando que tais medidas seriam essenciais para a “moralização” do Poder Judiciário. Entre as propostas concretas, o ex-governador defende a instituição de mandatos para os ministros do Supremo, com duração estipulada em 15 anos, e a fixação de uma idade mínima de 60 anos para a indicação de novos membros.

Além disso, Zema propõe a imposição de restrições à atuação de parentes de ministros em atividades que possam gerar conflitos de interesse, buscando reforçar um discurso de maior controle e transparência sobre as ações da Corte. A ideia é que os ministros passem a “prestar contas” de suas decisões, respondendo a críticas recorrentes de que o tribunal teria extrapolado suas funções constitucionais.

Propostas de Reforma e o Desgaste do STF no Eleitorado

O cientista político Luiz Felipe D’Avila, que participa da elaboração do programa de governo de Zema, explica que as propostas visam reposicionar o papel do STF. “O objetivo é restabelecer a função constitucional do STF, fazendo com que a Corte volte a ser uma intérprete da Constituição. Não existe artigo que permita ao STF legislar”, afirmou D’Avila.

Essa estratégia de Zema ocorre em um contexto de crescente desgaste da imagem do STF junto ao eleitorado brasileiro. Uma pesquisa Datafolha, analisada pela Gazeta do Povo, revelou que 75% dos brasileiros consideram que a Corte possui poder excessivo, embora 71% a reconheçam como essencial para a democracia. Os articuladores do Novo interpretam esse cenário como uma “janela” propícia para discursos críticos ao Judiciário.

O levantamento, realizado entre 7 e 9 de abril de 2026, com 2.004 entrevistas em 137 municípios, apresentou margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos e está registrado no TSE sob o número BR-03770/2026. A percepção pública de que o STF detém poder demais pode ser um terreno fértil para candidatos que se posicionam em oposição à Corte.

Para o cientista político Elias Tavares, a movimentação de Zema é uma clara tentativa de nacionalizar seu nome na corrida presidencial. “Ao trazer o STF para o centro do debate, ele sai do eixo estadual e passa a disputar atenção em um tema que mobiliza o eleitorado de direita em todo o país”, explicou Tavares.

Limites da Estratégia: Visibilidade e Riscos Jurídicos

Especialistas avaliam que a estratégia de confronto adotada por Romeu Zema pode gerar ganhos imediatos em visibilidade, mas também impõe limites para a expansão de sua candidatura a médio prazo. Ao focar o discurso no embate com o STF, o pré-candidato aumenta sua projeção nacional e fortalece a conexão com sua base eleitoral, mas enfrenta desafios para dialogar com eleitores de centro e construir alianças políticas mais amplas.

O advogado eleitoral Roosevelt Arraes, membro da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep), destaca que o conteúdo das declarações é crucial. Críticas ao Judiciário são parte do debate democrático, mas podem acarretar consequências jurídicas se ultrapassarem certos limites. “O que é punível é o falseamento de fatos. Se houver afirmação inverídica ou sem provas, pode haver responsabilização”, alertou Arraes.

Manifestações mais contundentes, como a defesa de prisão ou impeachment de ministros, adentram uma zona mais sensível. “Quando há imputações sem base concreta ou sem apuração, isso pode ser interpretado como um abuso no exercício da liberdade de expressão”, disse o advogado.

A tensão entre o Poder Judiciário e o cenário político ganhou um novo componente com declarações do ministro Dias Toffoli. Em meio a investigações conduzidas pela CPI do Crime Organizado, Toffoli reagiu a avanços de parlamentares sobre ministros do STF, afirmando que ataques a instituições com objetivo eleitoral podem ser punidos. Ele sugeriu que a Justiça Eleitoral deve agir contra condutas que busquem “obter voto” por meio da deslegitimação de instituições, mencionando a possibilidade de cassação de mandato e inelegibilidade.

Para Elias Tavares, declarações como as de Dias Toffoli elevam o custo da estratégia de Romeu Zema. “Elas funcionam como um sinal claro de que há limites institucionais sendo observados. O candidato passa a operar em uma linha mais estreita: precisa manter o discurso que mobiliza sua base, mas sem ultrapassar o limite que possa gerar consequências jurídicas”, explicou.

A fala de Toffoli ocorreu após o relator da CPI, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), defender o indiciamento de ministros do STF. Gilmar Mendes, por sua vez, pediu à Procuradoria-Geral da República (PGR) que investigue Vieira por suposto “abuso de poder”. No Congresso, a reação dos ministros do STF foi interpretada como um recado direto contra o avanço político sobre a Corte e o uso do tema em discursos eleitorais.

Roosevelt Arraes ressalta que a aplicação de punições depende de critérios específicos e não é automática. “A eventual cassação ou inelegibilidade depende de um processo e da comprovação de que houve ataque infundado com impacto eleitoral. Não é automática”, explicou. A linha divisória, segundo o especialista, está no conteúdo das declarações: “Não é a crítica em si que é punível, mas a divulgação de informações inverídicas. Se houver esse elemento, aí sim pode haver sanção, inclusive no campo eleitoral”, concluiu.