Política
Estudantes da UFF dão pontapé em mobilização por virada de Lula após 1º turno eleitoral
O impacto do resultado do primeiro turno e a reação estudantil A angústia com o resultado apertado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2022, que apontou Flávio Bolsonar
O impacto do resultado do primeiro turno e a reação estudantil
A angústia com o resultado apertado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2022, que apontou Flávio Bolsonaro com 47% dos votos válidos e Luiz Inácio Lula da Silva com 45%, desencadeou um movimento estudantil de protesto e mobilização. Em Niterói, no Rio de Janeiro, um ato convocado por centros acadêmicos da Universidade Federal Fluminense (UFF) reuniu centenas de pessoas em uma noite chuvosa, demonstrando a urgência sentida pelos jovens em relação ao futuro do país e da educação pública.
O protesto, que teve início no dia seguinte à apuração, no dia 5 de outubro, foi gestado na noite de domingo (4). A preocupação dos estudantes se concentrava na figura de Flávio Bolsonaro, visto como uma ameaça direta às universidades. A proposta de desvincular as universidades do Ministério da Educação e transferi-las para o Ministério de Ciência e Tecnologia, com verbas menores, era um dos pontos que mais alarmavam os jovens.
A manifestação, iniciada por estudantes de Direito da UFF, rapidamente ganhou adesão de moradores e transeuntes, transformando-se em uma passeata significativa. O evento não apenas canalizou a insatisfação, mas também serviu como um marco para o início de uma série de mobilizações estudantis em outras cidades do país, reforçando o papel histórico dos estudantes na defesa da democracia e das instituições públicas.
Contexto e motivações da mobilização estudantil
A decisão de organizar o protesto partiu de entidades estudantis do curso de Direito da UFF, como o Centro Acadêmico Evaristo da Veiga e a Associação Atlética Acadêmica Camillo Guerreiro. A motivação principal era a preocupação com as propostas do então candidato Flávio Bolsonaro, que, segundo os estudantes, representavam um risco iminente à autonomia e ao financiamento das universidades públicas. Valentina Cruz, diretora do Centro Acadêmico de Direito, explicou que a proposta de mudar as universidades de ministério visava diminuir as verbas destinadas à educação.
Essa proposta, de fato, constava no plano de governo do candidato do PL. Para Valentina e outros estudantes, era clara a necessidade de uma reação imediata. Eles temiam cortes generalizados em todas as áreas universitárias, desde a infraestrutura até os programas de permanência estudantil, um cenário que, na visão deles, remetia aos anos do governo de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022.
Simão Gabriel Adorno, membro da atlética do Direito, reforçou que a mobilização também se baseou na experiência recente das universidades públicas durante a gestão de Jair Bolsonaro. Ele lembrou que a UFF foi uma das primeiras federais a sofrer cortes, sob a alegação de promoverem “balbúrdia”, conforme declarações do então ministro da Educação, Abraham Weintraub. O ex-presidente chegou a endossar essas críticas, chamando universitários de “idiotas úteis” e “massa de manobra”.
Na época, os estudantes protestaram, mas não conseguiram evitar o contingenciamento de até 30% das verbas, o que impactou o funcionamento das instituições e a concessão de bolsas de pesquisa, essenciais para estudantes de baixa renda, muitos deles negros e oriundos de periferias. “Nós vimos como o bolsonarismo atacou as universidades na gestão do Jair, como a universidade foi vilipendiada, como eles desprezam as instituições de ensino público. A gente sentia que estava arriscando a perder nossa faculdade, a nossa casa. A educação pública estava em risco”, avaliou Simão Gabriel.
Além das questões educacionais, os estudantes de Direito também se opunham à anistia defendida por apoiadores de Jair Bolsonaro, que na época estava preso por liderar uma tentativa de golpe de Estado que culminou nos ataques à Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023. Flávio Bolsonaro havia prometido que seu pai seria libertado e subiria a rampa com ele em sua posse, caso fosse eleito.
Da articulação à passeata: o nascimento de um movimento
A articulação para o ato começou na noite de domingo (4), logo após a divulgação dos resultados do primeiro turno. A ideia inicial era uma manifestação interna, restrita a alunos e professores, com a presença de representantes de entidades como a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). No entanto, a iniciativa rapidamente ganhou corpo.
“A gente precisava fazer algo. Era para ser uma coisa interna, de alunos e professores, representantes de algumas entidades, como a OAB, mas passaram-se as horas e éramos centenas”, contou João Paulo Armando, outro diretor do centro acadêmico de Direito. Durante a organização, os estudantes também levantaram a bandeira do “Direito Antifascista”, um estandarte criado em 2018, antes da primeira eleição de Jair Bolsonaro.
A postura de Flávio Bolsonaro contra direitos civis, a Constituição Federal e em defesa da Ditadura Militar era um ponto de grande preocupação para os estudantes de Direito. “Para nós, do Direito, a situação (da vantagem) era absurda, sobretudo, diante da postura dele contra direitos civis, contra a Constituição e em defesa da Ditadura. Nós sabemos o que foi isso”, afirmou João Paulo, lembrando o caso de Fernando Santa Cruz, ex-aluno da instituição e militante político desaparecido durante o regime militar em 1974.
Com a convocação, que trazia uma imagem do presidente Lula com jovens, outros cursos da UFF aderiram e pediram para se juntar ao movimento. Cauê Moraes Marins da Silva, diretor do Centro Acadêmico de Relações Internacionais Sérgio Vieira de Melo, também da UFF, destacou a preocupação com o cenário político global. “Vimos nosso país ameaçado, nossa democracia em risco, observamos as movimentações do governo Trump, e decidimos ser um ponto de resistência no Sul Global”, relembrou.
No fim da tarde de segunda-feira, a articulação ganhou um tamanho inesperado, com participantes que já não cabiam mais no pátio da faculdade. A decisão foi, então, sair em caminhada pelas ruas de Niterói. Valentina Cruz relatou ter visto uma senhora idosa, aposentada e com bengala, se aproximar e se emocionar com o ato. “Ela estava lá, na chuva, conosco, e disse que o nosso futuro não podia ser entregue para a extrema-direita”, contou.
Apesar do apoio popular, o ato pacífico também enfrentou reações negativas. Cauê lembra que ovos foram arremessados de sacadas contra os estudantes. “Várias pessoas identificadas com o campo progressista e o PT foram agredidas e até mortas nesta eleição. A violência foi real, o que é um absurdo na democracia”, disse. “Na manifestação do dia (5), jogaram ovos contra nós em um ato pacífico, e, mesmo assim, nós continuamos”.
A onda de protestos e o protagonismo estudantil na história
A mobilização iniciada em Niterói na segunda-feira ganhou força ao longo da semana e se espalhou por outras cidades do país. Na quarta-feira (7), estudantes do Rio de Janeiro ocuparam as ruas do centro da cidade em mais uma passeata, alertando para os riscos do resultado eleitoral e defendendo a democracia e a educação pública de qualidade.
Protestos estudantis se multiplicaram em cidades como Brasília, onde uma multidão se reuniu na Esplanada dos Ministérios. Essa sequência de atos fez parte de uma campanha popular pela reversão do resultado eleitoral, que passou a focar na oportunidade de conquistar votos nulos e atrair eleitores indecisos ou que não votaram no primeiro turno. Isabela Casalini, estudante de desenho industrial da UFF, de 21 anos, expressou o sentimento de revolta:
“A eleição de vários representantes do fascismo, da extrema-direita, me assustou”, contou. Ela revelou que tirou o título de eleitor aos 16 anos com o objetivo de votar contra Jair Bolsonaro. “No dia 5, a gente tinha um sentimento de revolta.” Isabela acredita que aquela manifestação na UFF foi o pontapé inicial para a mobilização crescente dos estudantes e manifestou a intenção de permanecer ativa. “Hoje, estou aqui de novo para comemorar nossa vitória e informar que não deixaremos de nos posicionar nos próximos anos”, declarou.
O protagonismo estudantil na luta por transformações sociais e políticas no Brasil não é um fenômeno recente. A historiadora Carolina Barreto, pesquisadora de movimentos sociais, aponta que, mesmo antes da ditadura militar, em 1964, a União Nacional dos Estudantes (UNE) já atuava em defesa de causas nacionais, como a criação da Petrobras e o combate ao nazifascismo.
Na década de 1990, os estudantes foram protagonistas do movimento “Fora, Collor”, que pediu a deposição do então presidente Fernando Collor de Mello. Em junho de 2013, eles também participaram ativamente dos protestos que tomaram as ruas do país, apesar de o movimento ter se apresentado de forma mais difusa, abordando pautas como a gentrificação e o alto custo de vida nas cidades. Barreto lembra que a única vez em que os estudantes ficaram à margem de grandes mobilizações foi na década de 1980, durante o auge do movimento sindical em São Paulo.
O advogado Felipe Santa Cruz, filho do estudante e militante Fernando Santa Cruz, que cursou Direito na UFF, ressaltou a importância da mobilização atual. “Nós estamos orgulhosos dos estudantes da UFF e dos estudantes de todo o país”, declarou. Ele enfatizou que os estudantes da UFF se uniram espontaneamente e tomaram a história em suas mãos diante do risco que o país corria. “Foi um ato muito bonito”, finalizou.
Felipe Santa Cruz, que tinha apenas 2 anos quando seu pai desapareceu durante a ditadura militar, destaca a coragem e a indignação dos jovens. A mobilização estudantil, iniciada com um ato simples em Niterói, demonstrou a força da juventude na defesa da democracia e das instituições públicas, ecoando em todo o país e reafirmando o papel histórico dos estudantes como agentes de transformação social.


