Política

Movimento Vovó Vota: Idosas de 70+ Ampliam Consciência Cidadã e Combatem Abstenção Eleitoral com Luta e Memória

Idosas de 70+ Ampliam Consciência Cidadã e Combatem Abstenção Eleitoral com Luta e Memória Em comunidades rurais e centros urbanos do Brasil, um movimento crescente de mulheres com

Movimento Vovó Vota: Idosas de 70+ Ampliam Consciência Cidadã e Combatem Abstenção Eleitoral com Luta e Memória

Em comunidades rurais e centros urbanos do Brasil, um movimento crescente de mulheres com mais de 70 anos está redefinindo a participação cívica. Impulsionadas pela memória de tempos em que o voto era restrito ou inexistente, e pela necessidade de garantir direitos conquistados a duras penas, essas eleitoras, muitas vezes chamadas de avós, tornaram-se agentes de conscientização. O movimento ‘Vovó Vota’, parte da iniciativa ‘Voto 70+’, busca combater a alta taxa de abstenção nessa faixa etária, ressaltando o poder do voto como ferramenta de transformação social e manutenção da democracia.

A iniciativa se destaca pela atuação de lideranças como Maria Alaídes Alves de Souza, uma quebradeira de coco babaçu de 71 anos no Maranhão, que percorre distâncias significativas para motivar outras idosas a exercerem seu direito. O movimento enfatiza que, mesmo com o voto facultativo para maiores de 70 anos, a participação é crucial para a conquista e manutenção de políticas públicas e direitos fundamentais, especialmente para grupos historicamente marginalizados.

A importância dessa mobilização é evidenciada pela queda recente na abstenção de eleitores com mais de 70 anos. Segundo dados do Movimento Voto 70+, o percentual de eleitores nessa faixa etária que não compareceram às urnas no primeiro turno das eleições caiu quase 10 pontos percentuais em comparação com o pleito de 2022. Esse dado reflete o impacto das campanhas de conscientização e o engajamento de figuras como Maria Alaídes, que inspira outras a valorizarem o poder de seu voto.

Conforme informações divulgadas pelo Movimento Voto 70+ e dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o percentual de eleitores com mais de 70 anos que deixaram de votar passou de 58,8% em 2022 para 49,1% no primeiro turno das eleições mais recentes. A campanha ‘Vovó Vota’ busca intensificar essa tendência no segundo turno, promovendo a conexão entre netas e avós e lembrando que a participação é possível e importante a cada pleito.

A Força da Memória e a Luta por Direitos

A trajetória de Maria Alaídes Alves de Souza, de 71 anos, na comunidade rural de Ludovico, no Maranhão, exemplifica a dedicação em prol da conscientização eleitoral. Mesmo com 70 anos completados, ela caminha longas distâncias para exercer seu direito ao voto e, mais importante, para incentivar outras mulheres de sua comunidade e de regiões vizinhas a fazerem o mesmo. Para ela, o voto é um ato de orgulho e um instrumento essencial para a manutenção de direitos e o fortalecimento da democracia.

Como liderança entre as quebradeiras de coco babaçu, um grupo que soma mais de 300 mil trabalhadoras nos estados do Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins, Maria Alaídes entende que a participação popular é o caminho para a conquista de direitos e a efetivação de políticas públicas. As mudanças climáticas, que afetam diretamente sua atividade laboral, são uma de suas principais preocupações e um dos motivos pelos quais ela defende a importância de eleger representantes comprometidos com a sustentabilidade.

A alta abstenção entre idosos com voto facultativo é um desafio histórico. No Brasil, cerca de 16 milhões de pessoas têm mais de 70 anos, representando 10,6% do eleitorado. A campanha ‘Vovó Vota’ se insere nesse contexto, buscando reverter essa tendência ao conectar gerações e valorizar a experiência e a sabedoria das eleitoras mais velhas. A iniciativa ressalta que a democracia se fortalece com a participação de todos os cidadãos, independentemente da idade.

A professora Sandra Oliveira, filha de Maria Albino Costa, de 85 anos, destaca o orgulho que sente pela trajetória de sua mãe. Sandra, que foi a primeira da família a cursar o ensino superior, utiliza as histórias de sua mãe em suas aulas, especialmente em áreas rurais, para combater manifestações machistas e reforçar a importância do voto feminino. Ela enfatiza a necessidade de garantir o espaço das mulheres na política e na sociedade, lembrando que muitas não tiveram os mesmos direitos no passado.

Superando Barreiras e o Medo para Exercer a Cidadania

A superação de barreiras físicas e emocionais tem sido um fator crucial para a participação eleitoral de idosos. Maria Albino Costa, de 85 anos, em Orizona (GO), não votou no primeiro turno por considerar a tarefa de lembrar ou anotar os diversos candidatos complexa. No entanto, a simplificação do segundo turno, com a escolha apenas para presidente, a motivou a participar, contando com o apoio de sua filha e neta. Ela ressalta que, após viver a ditadura militar, quando o voto era restrito, faz questão de exercer sua cidadania.

A professora aposentada Maria José Cantarelli, de 80 anos, em Olinda (PE), também deixou de votar por 12 anos. Contudo, após conversar com seus filhos e neta, decidiu retornar às urnas. Ela expressa receio com o clima de acirramento político e as agressões verbais observadas nas ruas, que geram um sentimento de medo. Apesar de ter perdido seu título eleitoral, ela já providenciou o e-título digital, demonstrando sua determinação em garantir seus comprovantes eleitorais e participar ativamente do processo democrático.

A memória de tempos em que o voto não era um direito garantido motiva muitas dessas eleitoras. Francisca Barroso Monteiro, de 84 anos, em Nova Iorque (MA), relata como o direito à cidadania possibilitou que ela lutasse para que seus 10 filhos frequentassem a escola, algo que ela não pôde fazer por falta de oportunidade. Ela espera que os eleitos garantam o acesso a medicamentos e alimentos, especialmente para crianças e idosos, evidenciando a conexão entre o voto e a garantia de necessidades básicas.

Outras eleitoras enfrentaram dificuldades práticas, como filas longas e a necessidade de subir escadas em locais de votação. Prazeres Maria da Silva Antunes, de 72 anos, no Rio de Janeiro, e Beatriz Cintra Labaki, de 79 anos, em São Paulo, relataram essas experiências. Apesar disso, Beatriz contou com o apoio do filho e focou sua escolha em candidatos com propostas sólidas nas áreas de saúde e educação, ressaltando a importância de representantes atuantes e comprometidos com a população.

O Impacto do Movimento Voto 70+ e a Redução da Abstenção

A queda de quase 10 pontos percentuais na abstenção de eleitores com mais de 70 anos no primeiro turno das eleições é um indicador promissor do impacto do Movimento Voto 70+ e iniciativas similares. Esse resultado, segundo o movimento, demonstra a eficácia das campanhas de conscientização em engajar essa parcela da população, que historicamente apresenta altas taxas de abstenção, especialmente por se tratar de voto facultativo.

O TSE estabelece que pessoas idosas têm atendimento prioritário nos locais de votação e que medidas de acessibilidade devem ser garantidas para assegurar autonomia e segurança. Essa resolução visa mitigar as dificuldades enfrentadas por eleitores com mobilidade reduzida ou outras limitações, como as relatadas por Prazeres Maria da Silva Antunes e Beatriz Cintra Labaki. A campanha busca reforçar o conhecimento sobre esses direitos e a importância de sua aplicação.

A campanha ‘Vovó Vota’ também incentiva a participação no segundo turno, mesmo para aqueles que não votaram no primeiro. A mensagem é clara: cada voto conta e a oportunidade de participar e influenciar o futuro do país está sempre disponível. Essa abordagem inclusiva visa combater a desmotivação e reforçar a ideia de que a cidadania é um exercício contínuo.

As memórias de um passado sem democracia plena, como as da aposentada carioca Suely Mendonça, de 79 anos, que participou das Diretas Já, reforçam a importância de cada eleição. Ela se emociona ao ir votar, sentindo-se parte integrante da vida do país. Sua trajetória, marcada pelo estudo em rede pública e pela vivência da censura durante a ditadura militar, a leva a escolher candidatos com base em seus compromissos e histórico de luta contra regimes autoritários, e não por afiliação partidária.

O movimento ‘Vovó Vota’ e suas participantes ativas, como Maria Alaídes, Maria Albino, Maria José, Francisca Barroso e Suely Mendonça, representam a força da memória, a resiliência e a consciência cidadã. Ao combaterem a abstenção e incentivarem a participação, essas mulheres não apenas exercem seu direito, mas também inspiram novas gerações a valorizar a democracia e a lutar por um futuro mais justo e igualitário. A luta pelo sufrágio feminino, que remonta a décadas, encontra eco na determinação dessas idosas em garantir que suas vozes sejam ouvidas.