Política
Bancada Feminina Histórica: Mulheres Eleitas para o Congresso Nacional Alcançam Novo Patamar, Mas Equidade Ainda é Distante
Mulheres Eleitas para o Congresso Nacional Alcançam Novo Patamar, Mas Equidade Ainda é Distante O cenário político brasileiro testemunha um marco histórico com o aumento sem preced
Bancada Feminina Histórica: Mulheres Eleitas para o Congresso Nacional Alcançam Novo Patamar, Mas Equidade Ainda é Distante
O cenário político brasileiro testemunha um marco histórico com o aumento sem precedentes do número de mulheres eleitas para o Congresso Nacional. A próxima legislatura verá a maior bancada feminina já registrada na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, refletindo um avanço significativo na representatividade feminina.
Na Câmara, o número de deputadas federais saltou de 90 para 109, representando um crescimento de 21%. Este resultado expressivo ocorreu mesmo diante de uma diminuição no total de candidaturas femininas, sinalizando uma maior efetividade na eleição das mulheres que se lançaram ao pleito.
No Senado, a eleição de doze mulheres para as 54 vagas em disputa marca o maior contingente de senadoras desde a redemocratização do país, elevando o número total de integrantes femininas na Casa para dezoito a partir do próximo ano.
Conforme informações divulgadas pelos resultados eleitorais, o aumento na bancada feminina é um dado relevante que, embora positivo, ainda não garante a paridade de gênero no Legislativo brasileiro.
Avanço Expressivo, Mas Longe da Paridade de Gênero
Apesar de celebrar o recorde, é fundamental analisar que as mulheres ainda permanecem em minoria nas duas Casas Legislativas. Na Câmara dos Deputados, a bancada feminina representará 21% dos 513 parlamentares na próxima legislatura. A federação composta por PT, PCdoB e PV se destacou, elegendo a maior parcela de mulheres, com 34 das 109 eleitas.
No Senado Federal, a proporção de mulheres eleitas neste ano eleva a representatividade feminina para 22,2% das 81 cadeiras. As senadoras eleitas tomarão posse em fevereiro, com mandatos que se estenderão até 2035. A renovação de dois terços da Casa em 2022 resultou na eleição de doze mulheres, superando as oito eleitas em 2018.
O Distrito Federal se destaca ao eleger duas novas senadoras, somando-se à que já possuía. Com isso, o DF se torna a única unidade da Federação a ter três senadoras mulheres. Em contrapartida, o Piauí se mantém como o único estado que, historicamente, nunca elegeu uma mulher para o Senado.
A dinâmica da renovação no Senado é particular, pois a Casa possui 81 senadores com mandatos de oito anos, sendo que a cada quatro anos um terço ou dois terços do Senado são renovados. Com o resultado das últimas eleições, o número de senadoras passará dos atuais quinze para dezoito integrantes.
Diversidade de Pautas e o Desafio da Representatividade Efetiva
O aumento no número de parlamentares mulheres não se traduz, necessariamente, em uma garantia de políticas públicas voltadas especificamente para as mulheres. Essa é uma avaliação compartilhada por especialistas em Ciência Política.
Segundo a professora Flávia Biroli, da Universidade de Brasília, à medida que o número de mulheres em cargos eletivos cresce, também aumenta a diversidade de pensamento entre elas. Algumas parlamentares podem, inclusive, defender perspectivas consideradas patriarcais ou não igualitárias.
“Você pode ter mulheres eleitas representando visões econômicas que são prejudiciais para a grande maioria das mulheres. Por exemplo, você pode ter uma mulher eleita, como é o caso da senadora Bia Kicis, que votou contra a lei de igualdade salarial entre mulheres e homens”, exemplifica Biroli, destacando a complexidade da representatividade feminina.
A declaração sublinha que a eleição de uma mulher não garante automaticamente a defesa de pautas femininas. A diversidade ideológica dentro da própria bancada feminina pode levar a divergências em relação a temas cruciais para a igualdade de gênero e para a proteção dos direitos das mulheres.
A Ascensão das Mulheres Negras no Legislativo
Um avanço notável observado nas eleições de 2022 foi o aumento da quantidade de mulheres negras eleitas, especialmente para a Câmara dos Deputados. Um levantamento realizado pela Organização Mulheres Negras Decidem contabilizou a eleição de pelo menos 15 mulheres negras para o cargo de deputada federal.
Este número representa um crescimento de 66,6% em relação a 2018, quando nove deputadas negras foram eleitas. A coordenadora política da organização, Tainah Pereira, celebra o avanço e aponta para a renovação geracional.
“É muito interessante perceber também que a imensa maioria dessas mulheres negras que estão hoje na Câmara e que se elegeram para a próxima legislatura são mulheres jovens. Então, a gente vê uma renovação feminina e negra e acho que a gente pode ter boas expectativas em relação à atuação dessas lideranças que conseguiram chegar agora”, afirma Pereira.
No entanto, o cenário no Senado Federal apresentou uma perda nesse aspecto. Das doze senadoras eleitas, nenhuma é negra. A senadora Eliziane Gama (PT), que atualmente ocupa uma cadeira pelo Maranhão e se autodeclara negra, não foi reeleita.
Outras duas candidatas negras também não obtiveram sucesso em suas disputas: Mariana Silva (Rede), que concorria por São Paulo e já foi senadora pelo Acre por dois mandatos, e Benedita da Silva (PT), pelo Rio de Janeiro, histórica por ser a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira no Senado em 1998. Até hoje, apenas quatro mulheres negras foram senadoras no Brasil.
Desafios Futuros e a Busca por Representatividade Plena
O aumento da bancada feminina é um passo importante, mas a luta pela equidade de gênero e pela representatividade efetiva continua. A diversidade de pautas e a necessidade de garantir que as políticas públicas contemplem as demandas de todas as mulheres são desafios que permanecem no radar político.
A maior presença de mulheres no Congresso pode, sim, impulsionar agendas importantes, como combate à violência de gênero, igualdade salarial e ampliação de direitos reprodutivos. Contudo, a pluralidade de visões dentro da própria bancada feminina exige um debate constante e a articulação de estratégias para que os avanços sejam concretos e beneficiem a sociedade como um todo.
O crescimento da representatividade de mulheres negras, embora com retrocessos no Senado, é um sinal de que a luta por um parlamento que reflita a diversidade da população brasileira segue em curso. A expectativa é que as novas parlamentares, com suas vivências e perspectivas, contribuam para um debate legislativo mais rico e inclusivo, promovendo políticas que verdadeiramente transformem a realidade de milhões de brasileiras.


